Tinha 26 anos e estava bem próximo do vigésimo sétimo
aniversário. Morava só desde os 20, no apartamento que o pai lhe providenciara,
grande, com espaço para as obras. Esqueço-me de mencionar de que ele era
artista e que li tudo isto nas correspondências que ele deixou na mesa por quase 7 meses.
As pessoas da escola de arte sempre diziam a ele que os empresários beberiam
seu sangue. Mas creio que ele nunca se importou. O que lhe importava era a
arte, em seu conceito quase integral.
Ali em seu apartamento, ele externalizava os sentimentos, sensações e tudo mais
que lhe fosse cabível. Lembro-me da primeira vez que adentrei o lugar, para
entregar uma correspondência que havia sido entregue à minha porta. Era como um
jardim e ao mesmo tempo, um ateliê. Tinha cheiro de tinta, verniz, gesso e
cigarros.
Ele me disse para entrar de algum lugar do fundo do apartamento e deixar as
correspondências em cima de uma mesinha. Não pude deixar de reparar em
esculturas e quadros bem peculiares, como uma estátua de gesso, sem sexo
aparente, com absoluta expressão de dor. Cheguei mais perto, e vi lágrimas de
chumbo saindo de seus olhos e narinas. Em cima dela, havia um quadro e nele, escrito
em letras negras e sóbrias, a palavra “ Dor “.
Fiz um sinal, para indicar que havia deixado as cartas no local indicado,
e ele apareceu de relance, sem camisa e com calças cáqui dizendo obrigado.
Devo admitir que fiquei deveras intrigado com o rapaz e seu apartamento. Tanta
melancolia. Eu não sabia, mas já ansiava voltar ao apartamento para ver mais.
Pensei em dizer novamente que o carteiro havia entregado correspondência
errada, já que ele nem se dera o trabalho de olhar as ultimas que eu havia
deixado em cima da mesa. E foi assim que fiz.
Ele disse como da última vez. “ Entre e deixe na mesma mesinha”. Ele não estava
visível quando entrei, e aproveitei para andar um pouco mais pelo apartamento.
A estátua da dor ainda estava por ali, mas decidi prestar atenção em outras coisas.
Havia um coração bem grande, flechado,
esfaqueado, sangrando. Eu diria morto. Procurei indícios do nome em vão. Apesar
do chão estar impecavelmente limpo, eu não poderia dizer o mesmo das paredes.
Respingos de tinta e verniz em uma, pintura expressionista em outra. Uma
locomotiva cor de marfim, extremamente bem reproduzida. Em sua placa dizia “
Pax”.
Em uma mesa próxima a parede da locomotiva, havia uma pequena réplica da mesma,
que não rodava em seus trilhos. Agora que ia me adentrando ao apartamento, as
estatuas de gesso em tamanho real apareciam em maior quantidade. Uma estatua
perfurando a outra pelas costas com uma espada, e sobre elas, escrito em
dourado, a palavra “Vingança”. Logo a frente, uma parede quase em branco, onde
residiam as palavras “ Amor e Incógnita “.
“ Está se divertindo? “ Uma voz me perguntou. Era o rapaz. Me assustei, pois
não tinha cartas nas mãos. “ Eu lhe perguntei se está se divertindo. Onde está
sua educação?”. Permaneci quieto, me direcionando para a porta. Os olhos dele
não eram de condenação, eram olhos sonhadores. Eu fiz que sim com a cabeça,
dizendo que estava me divertindo. Era estranho, mas sim, divertido.
Ele pousou a mão em meu braço, as unhas sujas de tinta seca. “ Pois pode bater
aqui e voltar quando quiser. Tenho guardado este museu apenas para mim, e ter
um visitante ou outro as vezes é bom. Pena que o carteiro não volte. Mas tenho
uma condição para tua visita. Não deverá falar, já que não falou agora, então
não fale nunca. Diga-me apenas o teu nome.”
E eu disse. E o meu nome foi a única coisa que eu disse a ele durante todos os
7 meses em que o visitei. Ganhei uma estátua de gesso chamada “Silêncio” um mês
depois. Não tinha sexo nem representação de cabelos, mas as feições dos olhos e
sobrancelhas eram levemente as minhas, porque obviamente, a estátua não possuía
boca.
Fiquei embasbacado com o presente, mas não sabia como retribuir. Via ele poucas
vezes quando ia ao apartamento, sempre trabalhando em algo novo, surpreendente
ou melancólico, mas ainda sim, novo. Estatuas de gesso representavam a maioria
dos sentimentos humanos. “Paixão” era uma estátua de joelhos, com um machado
que não era segurado por ninguém próximo ao pescoço, e ódio, uma estátua
inteira inexpressiva, mas com os olhos completamente vermelhos.
Embora algumas propostas me soassem macabras as outras me encantavam por uma
tarde inteira. Mas em todo este tempo, a parede escrita “ Amor Incógnita” nunca
foi pintada ou preenchida. Lembro-me da
penúltima vez em que o visitei, onde eu pude ver o rosto, com respingos de
tinta que deveriam ter caído da ultima obra. Ele me disse o nome, e me ofereceu
um cigarro. Eu não fumava, mas na hora, parecia certo aceitar. Muitos dos
respingos no rosto dele eram de tinta preta.
E chegou o meu ultimo dia de visita ao apartamento-museu. Eu não falo, ele me
deixa olhar. Muitos meses assim. Não havia nada novo na entrada do apartamento,
nem nos cômodos onde ele costumava deixar as novidades. Então fui adentrando,
pelos mares de esculturas que conhecia. Já fazia quase um mês desde a última
visita. Nenhuma nova escultura ou peça.
Fui até a parede que vi na primeira vez que visitei o apartamento, para deixar
aquelas correspondências. O que estava exposto ali na parede, nunca sairia da minha
mente.
Era um coração enorme, espontaneamente desenhado, assimétrico, torto. O pincel
devia estar ruim. E dentro do coração havia uma gravura que cobria grande parte
dele. Um anjo, com uma asa negra e uma asa branca, usava uma calça cáqui branca
e estava agachado. Ele abraçava o pintor ferido com uma das mãos e fazia um
sinal de silêncio com a outra. Demorei a perceber que ele tinha minhas feições
do rosto, perfeitamente desenhadas.
Havia um envelope pregado na asa negra do anjo e ele dizia:
“ Meu caro Alecto, espero que entenda o que estou para dizer neste bilhete.
Eu coração vazio pode ser ainda um coração? Não, não pode. E um ser humano pode
viver sem um. Veja eu. Todos os sentimentos que eu conhecia se encontram por
essas salas. Mas como acho que você percebeu, eu não conheci o amor. Vivia
isolado exatamente por isto. Sentia-me incapaz. Eu espero realmente que
entendas.
Quando entrou em minha casa, a incontáveis meses atrás, eu não esperava que
você, um rapaz com um incomum gosto pela arte de um desconhecido, completasse
minha externalização. Sei que pensou que a estátua do silêncio era pra você, e
que seu coração se alegrou por isso. Mas o Silêncio era meu. Do meu amor por
você. Não me entenda mal, Alecto. Mas não havia como calar o sentimento,
principalmente um que nunca conheci. Pensei em todos estes meses em uma maneira
de colocar o amor pra fora, mas falhei. A única maneira a qual encontrei
conforto, foi esta. Mais uma vez, espero que me entenda Alecto. “
Absolutamente embasbacado com o que eu acabara de ler. Olhei a pintura agora,
ela parecia mais terrível, difícil de encarar, porém, mais bela ao mesmo tempo.
Afastei-me da imagem e percebi que o pintor, ali encostado no anjo, não era uma
pintura, havia profundidade nele. Ele fizera o coração com sua tinta e
encostara-se no anjo, esperando. Estava tão imóvel, tão perfeito como pintura,
que observei uma última vez, como obra de arte, comovido. As cartas ainda estavam na mesa, e não faria mal se eu as pegasse.
Desde aquele dia, todas as noites eu sonho com o anjo que agora abraça o vazio e pede silêncio. Não
há mais ninguém para abraçar.
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