quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

L'ange Du Silence

Tinha 26 anos e estava bem próximo do vigésimo sétimo aniversário. Morava só desde os 20, no apartamento que o pai lhe providenciara, grande, com espaço para as obras. Esqueço-me de mencionar de que ele era artista e que li tudo isto nas correspondências que ele deixou na mesa por quase 7 meses.

As pessoas da escola de arte sempre diziam a ele que os empresários beberiam seu sangue. Mas creio que ele nunca se importou. O que lhe importava era a arte, em seu conceito quase integral. 

Ali em seu apartamento, ele externalizava os sentimentos, sensações e tudo mais que lhe fosse cabível. Lembro-me da primeira vez que adentrei o lugar, para entregar uma correspondência que havia sido entregue à minha porta. Era como um jardim e ao mesmo tempo, um ateliê. Tinha cheiro de tinta, verniz, gesso e cigarros.

Ele me disse para entrar de algum lugar do fundo do apartamento e deixar as correspondências em cima de uma mesinha. Não pude deixar de reparar em esculturas e quadros bem peculiares, como uma estátua de gesso, sem sexo aparente, com absoluta expressão de dor. Cheguei mais perto, e vi lágrimas de chumbo saindo de seus olhos e narinas. Em cima dela, havia um quadro e nele, escrito em letras negras e sóbrias, a palavra “ Dor “.  Fiz um sinal, para indicar que havia deixado as cartas no local indicado, e ele apareceu de relance, sem camisa e com calças cáqui dizendo obrigado.

Devo admitir que fiquei deveras intrigado com o rapaz e seu apartamento. Tanta melancolia. Eu não sabia, mas já ansiava voltar ao apartamento para ver mais. Pensei em dizer novamente que o carteiro havia entregado correspondência errada, já que ele nem se dera o trabalho de olhar as ultimas que eu havia deixado em cima da mesa. E foi assim que fiz.

Ele disse como da última vez. “ Entre e deixe na mesma mesinha”. Ele não estava visível quando entrei, e aproveitei para andar um pouco mais pelo apartamento. A estátua da dor ainda estava por ali, mas decidi prestar atenção em outras coisas.

Havia um coração  bem grande, flechado, esfaqueado, sangrando. Eu diria morto. Procurei indícios do nome em vão. Apesar do chão estar impecavelmente limpo, eu não poderia dizer o mesmo das paredes. Respingos de tinta e verniz em uma, pintura expressionista em outra. Uma locomotiva cor de marfim, extremamente bem reproduzida. Em sua placa dizia “ Pax”.

Em uma mesa próxima a parede da locomotiva, havia uma pequena réplica da mesma, que não rodava em seus trilhos. Agora que ia me adentrando ao apartamento, as estatuas de gesso em tamanho real apareciam em maior quantidade. Uma estatua perfurando a outra pelas costas com uma espada, e sobre elas, escrito em dourado, a palavra “Vingança”. Logo a frente, uma parede quase em branco, onde residiam as palavras “ Amor e Incógnita “.

“ Está se divertindo? “ Uma voz me perguntou. Era o rapaz. Me assustei, pois não tinha cartas nas mãos. “ Eu lhe perguntei se está se divertindo. Onde está sua educação?”. Permaneci quieto, me direcionando para a porta. Os olhos dele não eram de condenação, eram olhos sonhadores. Eu fiz que sim com a cabeça, dizendo que estava me divertindo. Era estranho, mas sim, divertido.

Ele pousou a mão em meu braço, as unhas sujas de tinta seca. “ Pois pode bater aqui e voltar quando quiser. Tenho guardado este museu apenas para mim, e ter um visitante ou outro as vezes é bom. Pena que o carteiro não volte. Mas tenho uma condição para tua visita. Não deverá falar, já que não falou agora, então não fale nunca. Diga-me apenas o teu nome.”

E eu disse. E o meu nome foi a única coisa que eu disse a ele durante todos os 7 meses em que o visitei. Ganhei uma estátua de gesso chamada “Silêncio” um mês depois. Não tinha sexo nem representação de cabelos, mas as feições dos olhos e sobrancelhas eram levemente as minhas, porque obviamente, a estátua não possuía boca.

Fiquei embasbacado com o presente, mas não sabia como retribuir. Via ele poucas vezes quando ia ao apartamento, sempre trabalhando em algo novo, surpreendente ou melancólico, mas ainda sim, novo. Estatuas de gesso representavam a maioria dos sentimentos humanos. “Paixão” era uma estátua de joelhos, com um machado que não era segurado por ninguém próximo ao pescoço, e ódio, uma estátua inteira inexpressiva, mas com os olhos completamente vermelhos.

Embora algumas propostas me soassem macabras as outras me encantavam por uma tarde inteira. Mas em todo este tempo, a parede escrita “ Amor Incógnita” nunca foi pintada ou preenchida.  Lembro-me da penúltima vez em que o visitei, onde eu pude ver o rosto, com respingos de tinta que deveriam ter caído da ultima obra. Ele me disse o nome, e me ofereceu um cigarro. Eu não fumava, mas na hora, parecia certo aceitar. Muitos dos respingos no rosto dele eram de tinta preta.

E chegou o meu ultimo dia de visita ao apartamento-museu. Eu não falo, ele me deixa olhar. Muitos meses assim. Não havia nada novo na entrada do apartamento, nem nos cômodos onde ele costumava deixar as novidades. Então fui adentrando, pelos mares de esculturas que conhecia. Já fazia quase um mês desde a última visita. Nenhuma nova escultura ou peça.
Fui até a parede que vi na primeira vez que visitei o apartamento, para deixar aquelas correspondências. O que estava exposto ali na parede, nunca sairia da minha mente.
Era um coração enorme, espontaneamente desenhado, assimétrico, torto. O pincel devia estar ruim. E dentro do coração havia uma gravura que cobria grande parte dele. Um anjo, com uma asa negra e uma asa branca, usava uma calça cáqui branca e estava agachado. Ele abraçava o pintor ferido com uma das mãos e fazia um sinal de silêncio com a outra. Demorei a perceber que ele tinha minhas feições do rosto, perfeitamente desenhadas.

Havia um envelope pregado na asa negra do anjo e ele dizia:

“ Meu caro Alecto, espero que entenda o que estou para dizer neste bilhete.
Eu coração vazio pode ser ainda um coração? Não, não pode. E um ser humano pode viver sem um. Veja eu. Todos os sentimentos que eu conhecia se encontram por essas salas. Mas como acho que você percebeu, eu não conheci o amor. Vivia isolado exatamente por isto. Sentia-me incapaz. Eu espero realmente que entendas.
Quando entrou em minha casa, a incontáveis meses atrás, eu não esperava que você, um rapaz com um incomum gosto pela arte de um desconhecido, completasse minha externalização. Sei que pensou que a estátua do silêncio era pra você, e que seu coração se alegrou por isso. Mas o Silêncio era meu. Do meu amor por você. Não me entenda mal, Alecto. Mas não havia como calar o sentimento, principalmente um que nunca conheci. Pensei em todos estes meses em uma maneira de colocar o amor pra fora, mas falhei. A única maneira a qual encontrei conforto, foi esta. Mais uma vez, espero que me entenda Alecto. “

Absolutamente embasbacado com o que eu acabara de ler. Olhei a pintura agora, ela parecia mais terrível, difícil de encarar, porém, mais bela ao mesmo tempo. Afastei-me da imagem e percebi que o pintor, ali encostado no anjo, não era uma pintura, havia profundidade nele. Ele fizera o coração com sua tinta e encostara-se no anjo, esperando. Estava tão imóvel, tão perfeito como pintura, que observei uma última vez, como obra de arte, comovido. As cartas ainda estavam na mesa, e não faria mal se eu as pegasse.

Desde aquele dia, todas as noites eu sonho com o anjo que agora abraça o vazio e pede silêncio. Não há mais ninguém para abraçar.

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