As vezes eu acho que estou indo além do sentimento. As luzes amareladas do subúrbio no início da noite. A fumaça de um bairro tipicamente industrial, empesteando o ar, acinzentando o céu. As ruas já desertas , no fim do crepúsculo, apenas eles ali, os dois, com suas bicicletas, um resquício de felicidade naquele lugar podre.
Andavam de mãos dadas, fazendo zigue-zague ora ou outra. Olhares de cumplicidade se encontrando, seguidos de risinhos de ambas as partes. Helicópteros passavam lançando seus faróis pela área. Os dois continuavam ali, naquela espécie de dança, indo e vindo em suas bicicletas.
Ela foi na frente, os cabelos ruivos dançando no vento industrializado, chamando ele para aquela espécie de esconderijo que era só deles. A fuga do mundo, uma espécie de lugar perfeito, o topo de um morro, que dava vista para um viaduto e para a cidade.
Largaram as bicicletas no topo do morro, não ia ninguém ali pra se preocuparem com elas. Uma subida calma, não muito íngreme, por uma trilha que eles mesmos fizeram. Começaram a descer pela outra borda do morro quando chegaram ao topo, até chegarem ao local onde podiam se recostar.
Ficaram ali, abraçados, olhando o movimento da cidade lá em baixo, com suas luzes brancas , carros de policia e lojas 24 horas. Eles fumavam cigarros que afanaram em uma destas lojas , nos seus passeios pela cidade.
A cabeça dela recostada no peito dele, sentindo ele encher-se e esvaziar-se de fumaça quente. Os dois absortos demais nos seus pensamentos pra trocar palavras. O som dos helicópteros era constante, e por duas vezes os holofotes passaram beirando o viaduto.
Eles estavam indo além do sentimento. Não podiam acreditar que tinham aqueles momentos de paz. Naquele subúrbio podre, de ar carregado e cheio de fumaça industrial, era inacreditável que um momento destes poderia estar acontecendo,em toda sua inocência e simplicidade. Talves em um passado distante, mas naqueles dias sitiados, qualquer fuga era motivo de glória.
Estavam descendo o morro, lenta e silenciosamente, as mãos dadas, trocando calor e suor. A brisa fresca do morro correndo os corpos dos dois, fazendo os cabelos ruivos dela esvoaçarem pela noite. Fizeram o caminho pra casa juntos, empurrando as bicicletas lado a lado, ainda de mãos dadas. Foi até na frente da casa dela, para se despedir.
Ela se jogou sobre ele com um abraço apertado. A respiração de um no pescoço do outro. Ela deu um beijo nele, deveras inesperado. Ele retribuiu. Um beijo Inocente, que pareceu iluminar o subúrbio por um instante, antes de morrer lentamente nos lábios dos dois.
Trocaram mais um olhar, e murmurraram um boa noite cada um. Ela acorrentou a bicicleta, e ele seguiu seu caminho. A noite barulhenta e desagradável também seguiu seu rumo. Mas para aqueles dois jovens, presos a suas vidas no subúrbio, de repente, tudo parecia mais bonito.
4 comentários:
Mas essa tara masculina por ruivas, tsc tsc. Brincando, ficou muito bom! Ainda vejo um ou outro probleminha (daqueles que sempre te aviso), mas diminuiram inversamente proporcionais à evolução da sua escrita. Só acho que faltaram maçãs. XD
Você está delineando seu estilo, moço. Isso é muito bacana! O ar melancólico do texto ficou legal pra caramba, principalmente por ser uma coisa meio cotidiana. Parabéns! Não pare de escrever!
Digo e repito: me lembra Across the Universe sim. E esse seu conto está uma gracinha, Lucas :B
Viu? As aulas da minha mãe lhe serviram para alguma coisa! - ou não, né?
Está muito bem feito, parabéns!
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