quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não-Lugar

Vastidão. Era onde eu me encontrava agora. Não dava pra dizer onde começava, ou se existia um fim. Era apenas um lugar. Melhor, um não-lugar. Não poderia ser real.
Procurei um caminho. A princípio ele aparentemente não existia. Mas após uma segunda olhada, o caminho estava lá. Longo e cheio de curvas. Não se via o fim. Simplesmente não havia um fim. O restante do espaço vazio começou a se preencher.
Um alaranjado, como em um fim de tarde, com o sol se pondo. O que era terra morta, ou nada, transformou-se em um campo com a grama alta, e algumas flores nasciam sozinhas entre a grama, geralmente rosas vermelhas.
Comecei a andar pelo caminho. Olhei para trás. Não havia indícios da existência do início da pequena estrada. Talvez eu já estivesse nela quando ela se formou. Um vento sepulcral soprou. Não balançou a grama alta, nem passeou por meus cabelos.
Como e porque eu havia ido parar ali? Um sonho? Um simples devaneio? Não saberia explicar.
A luz do que poderia ser o céu, estava oscilando. Do lilás pro alaranjado. Depois pro vermelho sangue, e por fim, o negro completo.
Então tudo ficou claro novamente. Tão claro que não dava pra definir onde era o chão, ou se eu estava suspenso no vazio. Havia como caminhar. Andei, horas sem fim. Não havia cansaço, ou eu apenas tinha essa sensação.
Então, alguns objetos começaram a aparecer pelo caminho que não era exatamente um caminho.
Uma pequena bicicleta, amassada. Figuras de ação, todas faltando um pedaço. Uma guitarra, com o braço rachado e sem algumas cordas. Uma estante de livros, que quando analisei mais de perto, descobri ser todos os quais eu gostaria de ler. E por fim, sentada ali em um banco de mármore escuro, estava ela. Os cabelos negros caindo-lhe sobre as costas. Aproximei-me. Apenas para constatar que era uma estátua. Perfeita em sua representação. A representação de um amor não correspondido.
E o entendimento me veio quase que absoluto. Era meu cemitério de sonhos. Os sonhos quebrados. Chegavam a ser gerados, mas logo depois, eram esquecidos, e largados em algum lugar do subconsciente. Talvez , durante um sonho desviado, eu tenha chegado ali.
Não era um lugar onde se podia controlar as coisas. Era um fruto do subconsciente. As coisas iam e vinham sozinhas, como que em flashes de qualquer clipe da MTV.
Era fantástico e enlouquecedor estar ali. Tomar consciência do inconsciente. Ver todos os sonhos não alcançados em um mesmo lugar, ao mesmo tempo. O não-lugar era minha cabeça, o meu pensar, o meu medo, a minha fuga.
Agora a vastidão estava repleta de tudo que se possa imaginar. Desde pequenos objetos do mundo físico, os quais eu não pude obter, aos tantos sentimentos que eu sonhava em ter um dia, mas nunca realmente os havia sentido. Sentimentos estes que pairavam com uma névoa fina, colorida, e as vezes, doce.
Então, como se todo o espaço me espremesse pra fora dele, eu senti que estava acordando. O relógio dava seus bipes. O sonho escorria da minha mente. Tentei segurar o máximo de lembranças, pra poder voltar a ele depois, mas foi como segurar fumaça com as mãos.
Então era hora da vida.Era hora de quebrar mais sonhos, e talvez, um dia, encontrar com eles, naquele não-lugar. Saí de casa ansioso para voltar, e tentar adentrar no cemitério dos sonhos. Mas desta vez, fiquei preso em uma sala vazia.

Um comentário:

Pâmela Vieira disse...

Pode-se pontaria um quadro com esse sonho.

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