
Era o último dia do verão. Talvez ainda houvesse tempo pra uma paixão antes do outono. Passeava á ermo pela cidade, tomando um sorvete de chocolate com nozes. Um fim de tarde perfeito. Avoado como ele era, os pés o levavam aos lugares favoritos. A pequena boutique onde comprava suas roupas e tênis, a banca de revistas a loja de celulares. Lembrou-se o motivo do passeio naquela tarde. Havia perdido novamente um dos tantos telefones que lhe eram dados, e a mãe havia dito para que comprasse outro. Ficou ali fora, observando os modelos caros e pomposos, enquanto terminava o sorvete. Adentrou a loja uns minutos depois, limpando a boca nas costas das mãos. Pegou uma senha no terminal automático, e foi sentar-se em uma das cadeiras da fila de espera. Como era de costume, enquanto esperava, tirou um livro da mochila, um daqueles tantos romances fantasiosos que ele gostava de ler á todo momento. Leu algumas páginas enquanto outras pessoas chegavam e esperavam na fila. Parou um pouco a leitura, e inclinou a cabeça , dando uma olhada na loja.
Então ela estava ali, parada, com alguém que parecia ser o irmão mais novo, mas isso é irrelevante. Ela era linda. Os cabelos curtos, em um corte Chanel, eram extremamente agradáveis e se enquadravam com o formato do rosto perfeitamente. E eram negros com um céu sem estrelas. Os olhos eram ávidos e de um castanho tão claro, que quase beirava ao surreal. O rosto era lindo, com feições anglicanas e algumas imperfeições. Imperfeições estas que agregavam uma naturalidade incrível á beleza daquela garota.
Os olhos dela encontraram o dele, e ao perceber isso, voltou-se desconcertado para a leitura. Fingiu virar uma ou duas páginas do livro, e arriscou outro olhar. Ela estava vestida quase como uma boneca. Sapatilhas com lacinhos, e um vestido que descia até o joelho, com listras horizontais em tons de cinza e branco. Novamente a garota se virou pra ele, que desviou rápido o rosto pro seu livro. Sentiu uma cosquinha nas bochechas. O rosto esquentando. Sabia bem o que era aquilo. Amor Platônico. Simples. Duraria até ela ir embora, ou em um caso mais raro, ela vir falar com ele.
Focou-se em tentar ler o livro. Vez ou outra espionava pelo canto dos olhos, tentando ver por onde ela andava. Até perceber que ela não estava mais ali. Relaxou. E deu uma olhada geral pela loja. Ela estava do seu lado.
Ela disse Oi. Sua voz era doce, macia, inocente. O garoto gesticulou com a senha na mão, que era sua vez, e fez que ia se levantar. Choque. Foi o que sentiu quando a mão dela tocou seu braço. Espere ela disse. Pelo menos pega meu telefone. E rápida como uma artesã, escreveu o número do telefone na mão dele, junto do nome. Alice.
Seguiu pro guichê de atendimento. Não era sua vez, era apenas uma desculpa pra poder se levantar. Foi pra fora da loja, e acendeu um cigarro. Não ligaria pra tal Alice. Era só um amor platônico. Coisa de momento. Não importava o nome, ou o depois. Era só o momento.
Já estava caminhando novamente. Escurecia. As luzes laranjas de mercúrio davam um ar nostálgico á cidade. Um vento fresco passeava pelas ruas, levando os últimos vestígios do verão. Olhou a mão com o telefone anotado, pensativo. Tateou os bolsos, a procura do celular. E lembrou-se que tinha ido a loja pra comprar um. Talvez no próximo verão.
Um comentário:
Será que o amor reserva algo para esse verão?
Gostei daqui! Beijo.
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