" Eu quero descansar no seu peito, do cansaço desta vida, do peso de ter que ser alguém, eu já não sei o que faço meu bem, nem o que farei." Cantos dos Malditos na Terra do Nunca.
Procuro a paz que se encontra justamente quando não há mais procura, quando há uma completa entrega; A dor, ao sofrimento, a aflição. Enfim, a paz que só se encontra na última das horas, quando os olhos cerram-se para nunca mais.
Eu quero encontrar a minha paz, porque sei dos perigos que essa vida me trás, assim como sei que inventamos amor e dor e tudo que nos satisfaz. Inventamos a dor para sentir o amor mais intensamente depois, um truque barato se quer saber. Não se pode inventar a paz, tampouco consigo parar de buscá-la, é uma vontade que corrói.
De todas as coisas que fiz na vida em busca desta famigerada paz, nada compara-se aos dois anos de serviço voluntário no Amazonas. Fiz aquilo para (tentar) preencher o enorme vazio que em meu âmago habitava, para buscar uma confluência maior para meus pensamentos. Eu estava me perdendo, fugindo, para me encontrar.
Muitos não valorizaram o que eu fiz e isso não importa, afinal, eu não almejava ser uma espécie de mártir, e por isso, os avisos foram dados apenas para que eu não fosse dado como desaparecido. Por dois anos ajudei os que necessitavam, levando mantimentos, ensinando o uso correto da língua portuguesa brasileira, e uma infinidade de outras pequenas coisas. Nunca me engrandecia por isso, não tentava mudar o mundo, pelo contrário, eu tentava mudar a mim.
Por dois anos, esqueci-me de que era, vivendo as marges da sociedade e do capitalismo, vivendo do outro lado e pelo outro, odiando a desigualdade. Isso não dava minha paz, mas preenchia-me de tal forma que por vezes eu esquecia que havia partido para buscá-la.
Por dois anos estive extremamente lúcido, lucidez esta que chegava a doer. Lucidez que me chamava para a realidade de meu próprio egoísmo, para minha covardia. Abdiquei de relógios e calendários, e esqueci por hora de tudo que larguei para trás. A vontade pela mudança constante quase cessou. Enfim, a paz. Se não fosse, chegava tão perto do ideal que eu poderia facilmente confundir.
E depois de mais de setecentos dias, a hora do retorno finalmente se fez presente. Houveram conflitos em minha mente. Como se eu não conhecesse mais o que havia naquela vida agora antiga. Um animal de cativeiro retornando ao ambiente selvagem.
Ao mesmo tempo que queria saber como estavam todos aqueles a quem eu havia deixado: Família, amigos e tudo mais, eu queria muito ficar. Foi como ter o norte trocado e o sol nascesse a oeste, queimando tudo que florescera em mim. A volta era como a morte, ERA a morte, afinal. A morte de um novo eu para dar lugar a um antigo.
A hora inevitável, da qual não se pode fugir e para mim, com o extra de ter que encarar eu mesmo e os infindáveis rostos gelados de gente que eu tratara com o descaso de sequer dizer adeus.
Enfim o medo, que ocupou todo um espaço ainda em branco junto ao desespero, que ocupara o lugar que eu pensava piamente, estar ocupado agora pela minha "paz". Tudo findou.
E por fim, a peça final desde confuso quebra cabeça: A inquietação, que faz com que minhas mãos tremam enquanto termino este texto e preparo uma corda para sufocar todo tipo de sentimento e adiantar a hora que todos só querem adiar.
Agora eu fujo e é para sempre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário