quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Artie


    Meio ano já havia passado. O Fim do ano letivo se aproximava e logo depois das férias, aquele magricela com sobrenome francês chegara para a todos instigar.


   Com cabelos alourados e cacheados e a camisa estampada com duas moças de alguma banda desenhada e os dizeres NANA, sentava-se da maneira mais estranha possível, sempre sozinho. Sempre. Vez ou outra um aluno moribundo falava com ele, mas era breve.

     Haviam alunos incomuns, sim, estranhos, mas este estava além de todos, com seus All Star's do Jim Morrison. Cursava o segundo ano do ensino médio, obviamente, o prodígio da turma. As melhores notas sempre ou quase sempre. Nunca tive acesso as suas provas, mas nunca precisei. Era motivo de chacota e paixões, conversas e olhares. Paixões estas as quais ele ignorava em sua santa arrogância. Silencioso.

     Quase não me lembro mais das nossas primeiras conversas, mas acredito que eram sobre " A Divina Comédia", livro o qual eu lia na época em que me aventurei a falar com você. E você não costumava falar muito, e quando falava, era denso. Não falava de onde vinha ou para onde queria ir, mas só por falar eu já considerava uma coisa fantástica!

     O que eu tinha por aquele estranho magricela hoje eu chamaria de "Amizade Platônica". Via sempre um amigo em potencial por traz de toda aquela arrogância aparente, o jeito estranho como se sentava para ler. Sempre.

     Tínhamos pouquíssimas coisas em comum, eu e ele. Poucas mesmo. O gosto pela leitura e pelos vídeo games eram uma destas raridades, porém, o que realmente se fez presente para o contato maior entre as partes, foi o gosto pela escrita.

     Publicávamos na internet, onde outros milhões ainda publicam, mas ainda sim, era como trocar segredos, expor o íntimo através de histórias simples ou nem tanto. Em suma, também nos comunicávamos pela internet, mas além disso, haviam os preciosos recreios enfurnados na biblioteca. Lembro-me do teu primeiro aniversário, o qual não fui e me arrependo piamente, e dos presentes bobos que lhe dei durante nosso tempo da escola: um imã de geladeira de um personagem icônico e um conto escrito a mão que sequer me lembro de ter corrigido.

    Inevitavelmente o convívio aumentou, as amizades em comum também. Eu sempre o chamava para sair, queria você integrado, comigo. Aqueles dias eram tão tranquilos e sem preocupação! Eu adorava sua presença neles.

.../As mímicas no início da noite em uma praça qualquer/ você "mimicando" filmes como ZombieStripper sem jeito e arrancando risadas *chegava a ser cruel, pois nós só dávamos as mímicas que iriam te deixar mais sem jeito*/ imitações do Flash em uma lanchonete qualquer/ observar você jogar handbol e encolher-se toda vez que a bola passava/ acampamentos que não deram tão certo/ eventos de anime em que fomos juntos/ e almoços no restaurante mais popular da cidade...

    As lembranças são tão boas, tão familiares. O que era tão comum, agora é quase dourado. Sinto que posso dizer agora, claro e firme: Ah os velhos e bons tempos!

Em algum lugar do mundo os Strokes tocam Someday :)

Um comentário:

Arthur Lamounier disse...

Oh, the good old days ! http://www.youtube.com/watch?v=_r88ga1mBdc

Esse distanciamento histórico de coisas tão "grandiminutas" são mesmo as mais saborosas. Hoje em dia me sinto mal pela mudança que sofri, das coisas que abandonei - incluindo a escrita e amigos tão perto e ao mesmo tempo tão longe ! Ainda guardo na memória aquele dia do alistamento em que fomos juntos (eu quase te obriguei),rs. Estava me borrando de medo e já imaginava sessões de tortura e humilhação entre soldados, tenentes, etc. Eu sinto uma falta daqueles tempos que você não tem ideia... E o ímã do melhor agente do mundo ainda está na geladeira, rs.

Não poderia vir de outra pessoa. Você é mesmo imprevisível, buddy. o/

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