segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Chave


    São duas da manhã e o telefone toca em meu criado mudo. Mesmo desorientado por acordar abruptamente, sei que é você do outro lado da linha. E é do outro lado da linha ouço você dizer que está ficando louco, insano, que as luzes não param de mudar. " Vem me encontrar " você diz, e eu pego as chaves do carro e vou. 
     É tarde e as luzes alaranjadas transformam minha visão em uma espécie de sépia negra e laranja. Passo com uma velocidade que não sei qual é pelos postes acesos e dentro do carro só há sombras e luz alternando rapidamente. Parece que ainda não estou acordado. 
     Quando chego ao trailer do Sheb, você está lá, em uma mesa um pouco afastada das demais, comendo batatas fritas com um ar desinteressado. Eu me sento e nós sorrimos, não há mais sono agora. Nunca há sono em você, pra falar a verdade. Pergunto o porque de tudo para ouvir o que eu já esperava. Estar entediado não é um problema quando se tem um amigo, e nós dois estávamos entediados. Não que vagabundar fosse resolver os nossos problemas, mas ajudava a beça. 
     Vejo você roubando um maço do Sheb antes de sairmos para flertar com o desastre. Balanço a cabeça negativamente para mim mesmo, mas... quantas vezes eu mesmo não fiz isso? Dentro do carro novamente, agora com você. Indo pelo caminho sagrado de todas aquelas noites deveras, hum, peculiares. No caminho que seguimos é tudo luz sombra e fumaça, como num sonho enevoado. Seguimos para o parque com vocÊ cantarolando Shadowplay. Nada mais apropriado. 
     No parque você retira seu pé de cabra que fica escondido no meu carro e destrói um banco enquanto procuro algo na rádio. Kool Thing do Sonic Youth é o que eu encontro. Desço para observar sua animalidade ao destruir patrimônios públicos, e você para ofegante, me oferecendo um cigarro, que eu aceito de má vontade. O cigarro dura por mais dois bancos. O cheiro que você exala ao voltar para o carro é rebelde, forçado, além do tempo. 
    Paramos no Sheb novamente, desta vez para um refrigerante. Eram entre três e quatro da madrugada, a hora do diabo, onde os reflexos de nossa convivência passam a ser algo mais em mim. Entre três e quatro da manhã era quando fazíamos o pêndulo da morte. 
     As lembranças me vieram vividas, talvez pelo fato da maconha ter potencializado tudo. Gritei por pensar ter visto um carro vindo em nossa direção oposta e quando olhei dentro dele, estávamos nós mesmos, reflexos perfeitos, meio esfumaçados, talvez por causa dos cigarros.  O pêndulo da morte consistia em soltar o carro em em uma ladeira. No centro dela, há um cruzamento, e logo após, uma outra ladeira, desta vez subindo. Não se segura o volante, e todo o carro é desligado. 
    Era uma coisa bem próxima da liberdade, era raro, era estar na mão do acaso e apenas dele, se é que esse tal acaso existiu alguma vez. Se não existiu, bem, estaríamos presos ao destino, e adeus proximidade com a liberdade. 
     Nunca suportei a descida sem um cigarro, e você muito menos. Quando você percebia que eu estava prestes a colocar as mãos no voltante, um olhar me bastava para a loucura continuar. E ela continuou. 
     Daquela fatídica vez, consequentemente a última, o carro com nossos reflexos veio pela direita, e de repente, não era um carro com nossos reflexos, era alguém indo trabalhar e bateu justamente do lado do passageiro, o seu lado. 
     Não me lembro do capotamento, ou das sirenes, ou de coisa alguma. Se eu não tivesse ficado quase duas semanas no hospital, juraria que foi um sonho. No tempo que correu, quebrei bancos no parque, roubei todos os cigarros que consegui no Shebs e brinquei de pêndulo da morte todos os dias, esperando você me ligar dizendo que estava ficando louco, insano, que as luzes não param de mudar. Era tudo que eu queria. 

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