quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crônica alheia

                                  " A maneira que encontro para dar-lhe o que mais desejo"

    Ele andava rabiscando esta frase em toda superfície rabiscável. Era uma frase de autoria própria, a muito tempo concebida/esquecida. Escrevê-la doía-lhe, mas simplesmente, não deixava de fazê-lo.

    Ele é o personagem principal desta historieta. Não convém a mim caro leitor, citar nomes, pois estes estão associados a pessoas, e estas , associadas a advogados. É difícil ser escritor, mas bem, me divirto como posso. Voltando a narrativa.
   
    O senhor Sky ( daqui pra frente, Sr. Sky) rabiscava a mesma frase que ele andara rabiscando por aí, mas agora usava seu bloquinho de notas. Alguns diziam que o (agora) velho Sky estava ficando senil, o que talvez não fosse mentira.

    Esta frase (não preciso repeti-la aqui né?) é antiga. O Sr. Sky a escreveu quando era jovem e (tolo) apaixonado pela Srta. Muller. Infelizmente, para nosso (agora) querido Sr. Sky, a vida só se tornou um mar de rosas no que diz respeito aos espinhos. Pobre Sr.Sky, acabou por definir toda uma vida através de uma frase escrita para uma dama. Quanto infortúnio!

    Após escrever a (agora) maldita frase, o Sr. Sky deu a Srta. Muller o que ela mais desejava: Ela mesma(ou reflexos daquilo que ele considerava como ela mesma) ou bajulação, se é que vocês me entendem.
    Este foi o erro mais boçal da história. Da história do Sr. Sky, claro. O Sr. Sky era um escritor em ascensão, a muito custo ele conseguira um emprego de cronista no jornal da cidade. Ele não era lá grandes coisas como escritor, e o jornal também não era grandes coisas, então ele permaneceu lá confortavelmente por muitos anos. Uma ótima cronica do Sr. Sky se chama: A corda e a grama.

    Então, um belo dia ou não tão belo assim se o Sr. Sky soubesse o que viria pela frente, a Srta. Muller veio trazendo (a desgraça) paixão e beleza para a vida do nosso querido Sr. Sky.

    Ela adorava suas crônicas publicadas naquele jornaleco e enviara uma carta ao velho Sky uma carta em algum momento da vida dos dois. Tornaram-se correspondentes apaixonados, mesmo sem nunca terem se visto. Não tardou para vir um primeiro encontro.

    Como um ser vivente da escrita o Sr. Sky obviamente escrevia ( afinal, a comida não se pagava sozinha) e o fazia com gosto. E assim foi. Mas depois de cartas e mais cartas ( e beijos) destinadas e recebidas da Srta. Muller, ele não a tirava da cabeça.  Este episódio ficou conhecido como a ruína do Sr. Sky.

    As pessoas precisam de novidades, e isso incluía crônicas novas no jornal toda segunda e quinta. O que não acontecia. O velho Sky não parava de pensar um minuto na maldita Srta. Muller, e como ele escrevia sobre o cotidiano, as simplicidades, ele passou muito daquela paixão pras páginas dos jornais, passou tanto, que as pessoas se cansaram. Até o mais idiota dos idiotas sabia agora quem era a famigerada Srta. Muller, que era uma mulher estranha e que usava turbante e óculos escuros para comprar pão e passear com um gato em uma coleira. As crianças costumavam dizer que ela era uma medusa arrependida, porque vez ou outra ela era afável.

    Exposta, a Srta. Muller fugiu, mas seus advogados não. O jornal por sua vez (sangrando dinheiro que não tinha por causa de um funcionário idiota/apaixonado) demitiu o (agora velho) Sky. Sky por sua vez, ficou famoso por pelo menos um mês. A fama deu-lhe a oportunidade de vender suas crônicas. Até um livro (apenas uma edição impressa) o Sr. Sky lançou.

    Com o resto do dinheiro, o Sr. Sky comprou o jornal fedido e muito vinho barato. Muito vinho mesmo. Tanto vinho que ele ainda bebe toda noite enquanto rabisca aquela frase velha, aquela, lá do início do texto.

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