Acordo com um som estridente, minha mente ainda vagueia, metade dentro, metade fora da luz.
Quando reconheço o som do telefone, desejo que todos que eu conheço tenham morrido, e assim o telefone jamais tocaria novamente. O que é uma besteira, já que bastava eu ter desligado.
É ela, ao telefone, e isso faz meu coração gritar, dando até a impressão de que eu estou de fato, vivo.
- Vamos no Sunset hoje, te espero lá as nove. - e antes que eu pudesse dizer sim, ela desligou.
Mas é claro, ela sabia que eu não furaria, nunca. Não com ela. E meu coração berrava, ansiando por mais uma noite regada a álcool e drogas, indo tão alto , que o ar estaria rarefeito, sufocando meus pensamentos e sentimentos, até ela vir até mim, meio dentro e meio fora da luz, e soprar pra dentro um novo fôlego, e alívio, até meus olhos encherem-se d'água.
Eu não sou uma pessoa tão boa assim, e isso não sai da minha cabeça enquanto me visto decentemente pra ir ao Sunset. O que é um nome bem nada a ver pra um bar que só abre durante a noite. Eu já vivi dias melhores, tão sem medo durante a juventude. Não consigo puxar o ar. Não acredito na verdade posta perante meus olhos.
Eu quero sentir, mas não consigo. E a chuva que eu pego da porta de casa até o carro não esconde minhas lágrimas vermelhas. Essa agonia que aperta o peito vem e vai. E eu ainda amo ela, mas não como eu costumava amar. Ela não é mais quem eu amo. Quem é ela?
Ela pode sentir isso também. O que eu to esperando? Tenho medo dela.
O carro vai pela estrada, e eu não entendo bem o que Lana Del Rey diz no rádio, mas é invariavelmente triste.
Ou talvez seja só meu ouvido viciado em não ouvir coisas alegrinhas.
Quero me mudar pra um deserto, e derreter nas suas areias, mas já faço isso sem sair do lugar.
Ela sabe que eu amo ela, ela me faz ser quem eu sou.
E tudo gira em torno dela. Eu não sou bom, mas talvez seja bom o suficiente pra ela.
As vezes eu acho que tenho amor suficiente pra muitos.
Mas só existe ela. Mas to sempre tão alto. Não sinto uma das minhas mãos quando ela segura. Não sinto meus pensamentos, é tudo anestesia. Não percebi que havia chegado ao Sunset. Não percebi que já estava com uma cerveja na mão.
Não percebo ela num primeiro momento, mas uma pontinha de consciência volta quando percebo-a.
Careca, com uma tatuagem de roseira em volta da orelha esquerda, e um cigarro sempre a mão, é a coisa mais bonita que vejo toda vez que a vejo.
Eu amo muito ela, mas não sei se é o suficiente.
Nós olhamos a cidade, e nos beijamos. Será que ela está tão perdida quanto eu?
Eu tenho medo. Dela, de perde-la. Mesmo sabendo que provavelmente vou um dia.
E as coisas continuam assim, como num segundo de stasis, onde o ponteiro do relógio vai e volta, sem nunca se mover além disso.
Mas tudo muda, e estamos em outro lugar, em outro tempo, e o dia quase amanhece, enquanto ela se aninha em mim, e eu me aninho nela. Anestesiados de todas as formas possíveis, no meio da luz, no meio da sombra, no lusco fusco da lucidez e da ebriedade, negando viver de fato e morrer de verdade.
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