Já fazia horas que a chuva batia na janela, com seus pingos grossos. O café fumegando junto ao notebook, ali na mesinha. Estava tentando escrever um texto, pra entregar na escola no dia seguinte. Já eram umas onze da noite. A chuva amansou. Abri a janela um pouco, quem sabe não entrava um pouco de ar fresco e tirava um pouco do cheiro de adolescente libertino do quarto.
Vez ou outra dava pra ver os relâmpagos no céu, tecendo um fio azul elétrico lindo, que durava uns poucos segundos, mas valia por sua beleza. Sentei-me à frente do computador, só pra lembrar porque havia me levantado. As idéias estavam escassas. Não conseguia produzir duas linhas, e apagava insatisfeito. Nenhum assunto era bom o bastante pra esse maldito texto.
Peguei uma garrafa de conhaque ali em baixo da cama, misturei um pouco no café. Uma janela do Messenger piscava ali, solitária, na tela.
Lucy diz : Você não vai mais falar comigo? Por favor me responda.
Não respondo, deixo a mensagem ficar ali piscando. O café já se foi, e agora a só tem conhaque puro na xícara. Aos poucos fui me lembrando de tudo que passei com A Lucy, até o dia em que ela viajou. E o título do texto veio no segundo gole de álcool. Distância. A partir daí o texto meio que se escreveu. Todas aquelas tardes mornas no parque, aquela volta na roda gigante, e até mesmo os recreios e intervalos da escola, passados pra tela do notebook. Não tinha falado com ninguém desde que ela havia viajado. Nem com ela. Havia um certo egoísmo, mas a indiferença com as pessoas ao redor era grande demais pra compartilhar a dor com elas. Maldita Lucy. Três páginas de texto. Duas a mais do que a professora pedira. Era um texto bonito, porém triste. Colocou um desfecho fantasioso, com a garota se despedindo, prometendo escrever, e o pobre rapaz, agora sozinho, voltava sozinho para casa, caminhando na chuva.
Sabia que os amigos de turma iriam rir quando lesse o texto para a sala toda. Sabia que todos reconheceriam que aquilo descrito havia realmente acontecido com ele e Lucy.
Andava quieto demais desde que ela havia partido. Não sabia pra onde, e agora não fazia questão nenhuma de saber também. Ia em alguns shows sozinho. Fumava, bebia, se drogava. Sabia que não adiantaria voltaria a vê-la, mas era uma maneira eficiente de manter a cabeça ocupada. Fumei um cigarro antes de cair no sono.
Acordei com o sol aquecendo agradavelmente minhas costas. Eram umas 7 da manhã. Alguém já tinha enchido minha garrafa de café. Tomei a xícara habitual, antes de sair arrumando as coisas pra seguir pro colégio. Bons dias aqueles da recuperação onde não era exigido uniforme dos alunos. Horríveis, diga-se de passagem. Folhas impressas na mão, garrafa de café e cigarros na mochila, estava pronto pra ultima prova.
Do metro até a escola, uns 20 minutos. Ouvindo música, nem dava pra ver o tempo passar.
Dentro da sala já, a professora explicou como ocorreria a prova. Os alunos iriam ler o texto, de tema livre, e ela avaliaria a partir disso. Quem se sentisse à vontade, poderia se levantar e ler o texto.
Como sempre, fui o último. Comecei a ler o texto. Entre um parágrafo e outro , olhava pra turma, para ver as mais diversas reações. Mas todas com um quê de surpresa.
- Fim – Eu disse quando acabei de ler o texto.
A professora se levantou. Aparentemente, uma lágrima estava se formando em um dos seus olhos. Alguns alunos da turma também se levantaram. Então me abraçaram, sem aviso prévio. Não sei quanto tempo durou. 1 minuto ou 100. Nesse meio tempo pensei ter visto o rosto de Lucy na pequena janela da sala, e meus olhos marejaram. Mas eu não chorei.
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