segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Caminhei por todo centro da cidade, procurando você. Cheguei nos confins da cidade, onde começava o litoral. Mas só fui te encontrar em um quarto sem janelas, em uma esquina qualquer, atrás da velha fábrica de biscoitos.
Aqueles encontros ás escondidas estavam se tornando cada vez mais raros. O término do colegial havia sido um choque. Ela foi pra longe, pra universidade. Eu fiquei trabalhando em um desses empregos de verão, que duram só uma temporada, sem um rumo a traçar na vida. Vez ou outra recebia uma ligação dela, dizendo que estava na cidade, e que gostaria de me encontrar no nosso lugar. Era um quarto vagabundo, mas amável no que se propunha. Tinha uma cama, uma TV que pegava apenas 3 canais, um banheiro simples com um chuveiro, e não tinha janelas, só um ventilador de teto, pra dar a impressão que o ar se movia ali dentro.
Permanecíamos ali por horas fio, com a porta entreaberta, sentindo o cheiro dos biscoitos sendo assados na fábrica. Conversávamos, fazíamos guerra de dedões recostados na cama, tomávamos banho naquele banheiro sujo, e fazíamos parecer a coisa mais legal do mundo. Ás vezes ela levava um rádio antigo, e sintonizava em uma estação desconhecida, pra poder ficar ouvindo a tarde inteira. Inventava danças, e me puxava pra dançar junto dela. Quando passávamos a noite, relembrávamos os nossos tempos do colegial, e as aulas que matávamos pra conhecer melhor o corpo um do outro. Ela me contava as paqueras da faculdade, e eu, as garotas que paquerava durante o expediente na cafeteria. Mais do que tudo, éramos amigos. Eu a amava, e acredito que ela me amava também. Não esse amor doente e possessivo. Um amor livre de tudo. Talvez fosse amor em sua forma pura. Ela poderia ter quem quisesse, eu poderia ter quem quisesse, e ainda sim, continuávamos bem. Ela me visitava, sem necessidade alguma, pois a família viajara com ela pra cidade onde ela agora estudava.
Em uma das tantas noites em que nós passamos juntos, eu sonhei coisas horríveis, coisas que não acreditei ser capaz de imaginar. Ela fazia um jogo de sombras comigo, simulando a própria morte, e se levantando logo em seguida. Pulava de um penhasco, para logo depois, aparecer sorrindo atrás de mim, me abraçando. Afogava-se em ondas, se jogava na frente de carros, esfaqueava-se, envenenava-se, e segundos depois, estava ali, dançando e brincando ao meu redor. Eu comecei a gritar. Um grito terrível, de entendimento, de compreensão. Um grito interminável. Então ela parou de dançar. Caiu inerte. Os gritos continuaram. Ela me acordou. Senti o rosto úmido, creio que de minhas próprias lágrimas. Ela me olhava com uma expressão de compaixão. Seus olhos estavam marejados também.Ficamos abraçados por um tempo, até adormecer novamente. Acho que naquela noite, compartilhamos um sonho. Um pesadelo. Uma idéia. Compartilhamos o entendimento.

Passaram-se os anos. A vida caminhou para nós dois. Os encontros foram ficando mais raros, e após um tempo, cessaram, talvez com um certo consentimento mútuo.É possível que um dia o amor , mesmo que puro, acabasse. E isso não era ruim. Nenhum dos lados foi prejudicado.
E por mais que, no fim das contas tenha ficado tudo bem, das duas vezes em que a vi, e nossos olhares se encontraram por uns breves momentos, eu tive certeza que nos nossos sonhos, nós ainda gritávamos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário