segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um momento

Não há nada tão gratificante como um momento de perfeição. Você luta por ele, você se faz merecer um momento perfeito. Porque são as únicas coisas consideravelmente perfeitas que se pode obter nesta vida curta. Então, quando você tem um, você simplesmente aproveita.
E foi num destes dias de sol deliciosamente quente e céu azul, caminhando preguiçosamente pelas ruas do bairro com os fones de ouvido no máximo e as músicas rodando aleatoriamente, que lhe ocorreu um dos momentos mais felizes daquele seu ano.
O tempo quente e agradável clamava por um sorvete. O pedido foi logo atendido. Dirigiu-se a sua sorveteria favorita, que era a uns dois quarteirões de onde ele se encontrava. Já acomodado em uma das mesinhas modestas do lugar, pediu o sorvete que ele considerava o mais delicioso de todos os tempos : Chocolate com nozes e calda de framboesa.
A sorveteria era a beira de uma praça calma e vazia, cheia de árvores para fazer sombras. Sentou-se ali, embaixo de uma das árvores, uma que o sol passava por entre as folhas, projetando inúmeros pontos de luz pelo chão. Já deviam ser umas quatro da tarde. Então colocou os fones de ouvido, e pôs-se a tomar o sorvete. O gosto estava maravilhoso. O doce do chocolate, combinando com o gosto amadeirado das nozes, e as sementinhas da calda de framboesa estalando no mastigar dos dentes. E então, na reprodução aleatória, aquela música tocou. Aquela em que o ritmo e a sonoridade diziam exatamente o que acontecia ali. Um ritmo calmo, limpo , animado, bonito. E foi como se o tempo tivesse desacelerado. Os insetos entre as árvores pareciam voar mais devagar, o sorvete derretendo vagarosamente, as nuvens lá no céu, com suas formas que não eram formas, indo pro sul devagar, sem preocupação nenhuma. E ele poderia ser uma nuvem naquele momento. Sem preocupação nenhuma, sem objetivo nenhum. Só ele, a música e seu sorvete. Era a síntese da perfeição. Um momento, não mais que isso, era o que poderíamos obter dessa palavrinha “perfeição”. E o mais intrigante, era que a perfeição vinha do conceito individual de cada um acerca disto. Tardes quentes e ociosas, um conceito de perfeição? Talvez. E ficou ali até o fim da música, aproveitando a perfeição gratuita oferecida por aquele momento. Terminou o sorvete, e deitou-se um pouco na grama. Esperou o céu começar a ficar laranja pra poder se levantar.
Ah, acabara de se lembrar, ia explorar uma casa abandonada aquele dia, onde os que se aventuravam por lá diziam ver um fantasma de um rapaz perfeito, vestido em um terno branco, e que tinha um sorrisinho irônico e demoníaco. Diziam que lá era a casa do demônio de branco. Mas já estava quase escuro, voltaria outro dia, pra ver o tal demônio. Não queria tirar tão cedo aquela tarde quente da memória com algo bobo ou assustador. E concentrou-se em voltar pra casa, devagar, aproveitando o iniciozinho da noite, que vinha trazendo um ar mais fresco e revigorante. Já era outono.

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