“Preciso de um lugar pra me esconder!” Era a frase recorrente em seus pensamentos. Se alguém conhecia a definição de tristeza era ela. A morte dos pais, quando tinha 19 anos havia sido um choque. O irmão, que era o demônio em forma humana e perfeita, havia retido todos os bens dos pais. O carro, os apartamentos, e a empresa que caia em dívidas e desgraça. Ela ficara com uma vida sem preocupações, quase normal. Trabalhava, saia umas poucas vezes, e todas as quartas-feiras almoçava com seu querido e odiado irmão. Era um almoço com poucas palavras, sempre nos melhores restaurantes. Muitas vezes ela nem tocava na comida, apenas observava. Durante seis meses foi assim. A vida normal, rotineira, e os encontros com o irmão, que nestes curtos seis meses, havia conseguido revitalizar a empresa deles, e agora a tinha vendido por uma quantia razoável de dinheiro, que segundo ele, poderia sustentar-nos confortavelmente durante uma vida inteira. E como ele estava ficando mais bonito. Os ares executivos e os rios de dinheiro o deixavam odiosamente bonito. Mas parecia tão solitário, que muitas das vezes ela se perguntava se o mesmo tinha amigos, ou alguém de confiança para pelo menos desabafar. Depois os pensamentos se esvaiam da cabeça dela, e ela fica ali, só admirando-o.
E então, veio o câncer pulmonar. E toda alegria e possível perfeição se foi. Deus sabe o quanto ela procurou uma maneira de fugir. Mas depois desistiu. Não fez quimioterapia. Parou de se preocupar, deixou a doença a corroer lentamente. Era inimiga de si mesma. Não avisou ao irmão, não avisou a ninguém. E a vida, ou falta dela, continuou. A mesma rotina, os mesmos almoços as quartas. Mas agora ficava receosa ao mirar-se no espelho. Emagrecera, e os cabelos estavam ficando mais ralos, talvez não pela doença, se sim pela amargura que crescia cada dia mais dentro dela. Os anos se passaram, quatro, para ser mais exato. O irmão, que agora parecia o inverso dela, aparentemente feliz, saudável e confortavelmente rico, começou a desconfiar. Mas fingia que não via nada. Ele já havia encontrado a cura para os corações partidos e os sentimentos de insegurança, mas era muito relativa essa tal cura, como ele mesmo dizia. A irmã parecia afligida por outra coisa em particular. Visitou o apartamento dela outrora, surpreendendo-se por ela não ter mudado a fechadura. Lá dentro, bem visível, em cima de uma das mesinhas estava um laudo médico, bem antigo, datando de quatro ou cinco anos atrás, falando sobre um câncer pulmonar. Não ficou nada impressionado por a irmã não lhe contar, e algo no seu íntimo dizia que deveria tomar alguma decisão.
E pôs se a conversar com sua irmã. Disse lhe que sabia do câncer, e que ofereceria os melhores hospitais, tratamentos e tudo que fosse necessário. E foi prontamente recusado. Ela deixara o câncer avançar demais. As dores agora eram insuportáveis, mas ainda sim ela as sentia. Sentia o câncer derramando seu sangue contaminado dentro do pulmão. O gosto metálico do sangue vinha junto da saliva, nos vários acessos de tosse que ela tinha agora. Estava fraca. Talvez lhe restassem apenas mais um ou dois meses. E ela fez o que poderia fazer: Esperou. Sentia a morte chegar, se aproximando sorrateiramente. Estava em seu leito e era quarta-feira. Esperaria uma visita do irmão. Ele sempre vinha ás quartas. E ele chegou mais belo que nunca. A roupa era toda branca. Uma camiseta e uma bermuda, vestindo-o como para que um almoço de domingo. E ele sentou-se na beirada da cama, bem junto dela, não disse nada. Só afastou um pouco os cabelos da face dela. Ele sorriu. Ela tentou sorrir, mas a dor lancinante e um acesso de tosse a interromperam. O gosto podre do sangue encheu sua boca, e sujou um pouco o lábio. O irmão aproximou o rosto dela, dando-lhe um beijo no cantinho da boca, limpando o lábio sujo de sangue com a língua. Afastou-se, colocando um travesseiro no rosto dela. O sofrimento da irmã o afligia, teria que parar uma hora, mesmo que contra a vontade dela. Ela mexia os braços freneticamente. Ele apertou o travesseiro mais um pouco. Ele não precisou segurar lhe as pernas, pois estas já não tinham mais forças pra nada. E aos poucos, as mãos foram se abaixando, como que aceitando a morte. Silêncio. O gosto salgado do sangue dela ainda permeava em sua boca. Ela estava em paz. Fora colocada em paz. Um momento agonizante, e depois o silêncio. Acreditava veementemente que a irmã estava melhor agora. Ele iria pro inferno, se é que existia algum. Era um demoniozinho disfarçado de anjo. Não sabia o que as pessoas que encontrassem o corpo constatariam por causa de morte. Foi a cozinha, pegou uma caixa de fósforos, e voltou ao quarto. Pensou se realmente deveria fazer aquilo. Um incêndio não é nada demais perto de um assassinato. Riscou o fósforo e o atirou na cama. Por um momento o fogo não vingou. Riscou outro. Deu as costas para a cama onde a irmã se encontrava. Sentiu cheiro de queimado. O demônio em seu inferno. Saiu da casa, o fogo já saia pela janela do quarto. A partir daí, fechou-se para o mundo. A mente era um turbilhão de pensamentos egoístas, culpa e indecisão. Estava só agora.
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