
Deitado na cama vagando. Divagando na verdade, sobre o nada. Dia vazio, vida vazia. O ar quente absolutamente parado ao lado de fora da janela, vez ou outra assolando-o com uma brisa meio desagradável. Já estava assim a alguns minutos ou horas, provavelmente horas, mergulhado em um estado de sonhar acordado. A mente desligada, suspensa. A casa também, vazia.
Então um riff. Um que ele conhecia. Um salto. A mente voltando a funcionar. Identificando a estrutura da música. Então parou. A música simplesmente parou. E começou novamente. Alguém treinando, com certeza. Voltou a cabeça para o braço que trabalhava como apoio. Ficou ouvindo o treino. Identificava os acertos, os erros, introduções e solos que todo guitarrista que se preze tocaria. Ficou intrigado, pois não havia vizinhos com tal gosto pra música. Levantou-se da cama, arrumou o jeans, pegou uma camiseta do chão e foi até o portão, tentando identificar de onde vinha o som do misterioso guitarrista.
Um sol escaldante e o som indetectável. Silêncio e calor. Voltou ao quarto, desanimado. Lá a música ainda tocava. Um trechinho de Shine On You Crazy Diamond. Deitou-se na cama de novo, para se levantar de imediato. Uma ideia absurda lhe ocorrendo. Absurdamente idiota, para falar verdade. Mas ia tentar mesmo assim. Tateou em cima do guarda roupas empoeirado até encontrar a maleta onde guardava a própria guitarra. A tempos que nem sequer olhava pra ela, imagina então tocar. O corpo todo branco, modelo Stratocaster. As cordas brilhando como se estivessem recém-trocadas. Segurou-a nos braços, retrato de glória que nem chegou a acontecer.
Pegou o amplificador embaixo da cama também, tirou a poeira dele com uma meia que estava ali no chão. Levou os dois para o segundo piso da casa. Fez as devidas ligações Guitarra x Amplificador, e posicionou-se na sacada da sala, virando o som para a vizinhança. Fez um sonoro e límpido acorde de Sol na guitarra. Afinação perfeita. Lembrava-se pouco das coisas que aprendera. Sabia apenas os acordes básicos e umas músicas mais clássicas. O bom e velho Rock’n’Roll. Tocou uma escala pra aquecer. O som inundando a vizinhança. Por alguns momentos, abafando o som do outro guitarrista. Parou. Ouviu. O outro continuava a ensaiar. Talvez estivesse muito longe para ouvir. Mas ele não desistiu. Aumentou até o talo o volume do amplificador. Tocou um Dó. Esperou. Nada. Outro. E mais outro. Esperou novamente. Um Ré, vindo de longe. A resposta. Esperou a nota acabar. Tocou um Mi. Esperou. Um Sol de resposta. Seguiram fazendo isso até acabar a escala de notas. Correspondência entre desconhecidos, falando musicalmente. Tentou uma música conhecida, tocou uma parte da introdução. A resposta veio logo em seguida, com a segunda parte da introdução sendo tocada pelo desconhecido.
Que momento incomum. Talvez o mais incomum daquele ano que ia terminando. Tocou outra música que sabia. Sem muito sucesso, estava enferrujado. Esperou a resposta do outro. E a resposta não veio. Ele já estava idealizando. Horas daquela comunicação sem palavras, só a música falando. Mas o outro não o respondera mais. Devia ter ido embora, ou só terminado de ensaiar. Não saberia. Desligou o amplificador, abaixou os volumes da guitarra e enrolou os cabos. Colocou cuidadosamente a guitarra na maleta. Voltaria a usa-la ainda naquela semana! Fosse por escutar o chamado, ou porque agora uma antiga vontade voltou a se acender nele. Iria a loja de música no outro dia, comprar palhetas, cordas, talvez até um novo afinador .
Camiseta do Pink Floyd, jeans azuis justos e meio sujos. Pegou o metro sujo e empoeirado lá pelas 9 da manhã. A porta já ia se fechando, quando ele ouviu lá do final da plataforma um “ Segura a porta Por favor ! “ . Ele deteve a porta do metro, que não partia se alguma das portas estivesse travada. Entrou um cara, talvez da idade dele, ou pouco mais velho, estilo de roupas parecido, tatuagens nos braços e tudo mais. Sorriu-lhe e disse um obrigado e passou por ele, demorando olhar na estampa da camisa. Depois seguiu pra dentro do vagão.
Havia reparado em uma das tatuagens no braço, bem perto do pulso. A mesma arte do álbum estampada em sua camisa, só que em escala menor. Virou-se novamente para a porta. Viu novamente a tatuagem pelo reflexo do vidro. E novamente os pensamentos absurdos lhe vieram a cabeça. Será? Queria voltar e perguntar, mas poderia estar errado.
Decidiu por não perguntar. Desceu na estação central, e estava por seguir o rumo da loja de música, quando ouviu alguém lhe chamar, e tocar o ombro.
Meio que já sabia quem era, mas deixa estar.
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