
Caminhar para esquecer era o que ele andava fazendo ultimamente. O cigarro carregado de ópio pendendo dos lábios frouxos. Caminhava por uma estrada solitária, a única que conhecera por toda uma vida. Não sabia até onde ia, mas por ela caminhava sozinho. A cidade ainda dormia, e ele caminhava as margens do subúrbio. O céu escuro de um lado, e começando a clarear do outro.
Outra rua vazia. A sombra o acompanhava agora, e tirando isto, ainda caminhava sozinho. A fumaça azulada do ópio enchendo os pulmões, enchendo-o de euforia. Logo viria o sono onírico! O céu cada vez mais claro. As primeiras nuvens parecendo grandes pedaços de brasa ao serem iluminadas pelo sol matutino. A sombra continuou caminhando, mas ele logo a alcançou. O coração agora era sentido como se fosse algo mecânico, falso. E ele caminhava sozinho. Parava, dava uma tragada, e continuava, devagar, aproveitando o primeiro vento frio do dia. Acendia outro cigarro. E mais outro. Talvez um quarto cigarro. A conta dos cigarros sempre era incerta. A sombra parada novamente, agora tinha ficado estacada um pouco atrás. Ele continuou a caminhada. Hora ou outra ela voltaria a acompanha-lo, sempre voltava. As lembranças ameaçavam ficar nítidas. Então outro cigarro era aceso.
As memórias agora eram como delírios em flash. Não sabia quando tinham ocorrido, ou até mesmo se tinham , de fato, acontecido. A noção do tempo não era mais a mesma. Ora muito rápido, ora vagaroso, ora indefinível. Quanto tempo tinha desde a última vez que fizera aquilo? Não lembrava. O tempo havia começado a ficar contínuo. Não sabia mais quando dormia. Períodos grandes eram apagados da memória. O ópio ajudava a suportar, e a apagar. Um vício de situações, misturado a um de substancias. A combinação perfeita.
O sol já aquecia um pouco o ar agora. A sombra voltara a acompanha-lo, agora um pouco esticada, talvez pela posição do sol. A cidade ainda dormia, na luz clara da manhã. Ruas silenciosas, cidade silenciosa. Nenhum carro, pessoa, ou sequer um cachorro. Ele caminhava sozinho. Outra rua vazia. Mas essa lhe era familiar. A sombra indicou-lhe um portão. A pintura vermelha, descascada, enferrujada. Sua casa. Pegou a chave em um dos bolsos, também indicado por sua sombra. Dentro de casa. Quem o trouxera? Talvez a própria sombra o tenha carregado. Ia deitar-se. Fumou mais um antes de chegar à cama. Sentou-se na beirada da cama. Os raios que adentravam a janela do quarto projetavam a sua sombra na parede. Olhou de novo para ela. Só outra sombra comum. Sem feição, escura. Virou-se para o calendário na beirada da cama. E oh, que surpresa, já era sábado de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário