Outubro de 1986.
Vivemos idealizando o que se chama de vida. Nascer, crescer, ser bem sucedido. Deixar satisfeitos ou invejados os que nos rodeiam. Como isso era chato. Toda a mania de uma sociedade superficial.
Sinceramente, eu não tinha do que reclamar da vida. Socialmente bem-visto, uma namorada bonita. Bonita não, linda. Aos 17 já podia considerar-me independente, havia um apartamento só meu e meus pais me enviavam dinheiro sempre. Um jovem gentlemen, com a vida regada de todos os luxos que a burguesia poderia oferecer.
Talvez o que me tornasse diferente era que eu idealizava a morte. Não uma morte comum, que não se pode controlar. A idealização do suicídio. Um momento em que se pode ter o controle, fazer valer o que chamamos de livre arbítrio.
E era isso. Se um momento era bom, talvez valesse a pena morrer. Obviamente não dizia isso a ninguém.
O tempo passava. A vida passava. Estudar, namorar, se divertir. Viver, como dizem por aí. Não precisava trabalhar. Estudava as artes. Vivia nos teatros e cinemas da cidade. Às vezes sozinho, e outras vezes acompanhado de Anna, sua doce namorada.
Sentia-se cansado da vida. Pensava que havia envelhecido antes do tempo. Tinha apenas 17 anos, mas sentia que havia envelhecido décadas. Um século ou um mês. Não dava pra especificar.
Perdia aos poucos a vontade de viver. Encontrava-se sozinho a maior parte do tempo. Sentia-se diferente por idealizar a morte perfeita. Já tinha o momento certo na mente. A música que tocaria momentos antes, os instrumentos que faria uso para tal ato.
O amor por Anna já não era o mesmo. Sentia-se meio medroso ao pensar nela e em sua reação. Mas estava decidido.
***
Estava chovendo aquele dia. Havia acabado de sair da casa dela. Ele queria se despedir, mas ela não estava. Deixou a carta por debaixo da porta. Talvez fosse melhor assim. Sentiu-se covarde. Mas o que iria fazer era uma covardia corajosa.
Tirou o casaco molhado quando chegou em casa, balançando a cabeça e respingando água fria na soleira da porta. Não se deu o trabalho de acender as luzes. Foi direto ao quarto.
Não se importava com o resto do apartamento, mas o quarto...
Era seu lugar favorito. Era o seu lugar. Um toca discos encostado ali ao canto, a coleção de LP’s enfileirada aleatoriamente na estante, a cama meio abarrotada, ainda da ultima vez que estivera ali, um pouco mais cedo. E a coisa que ele mais gostava dali. A parede vazia, que ele mesmo pintara, com a capa do álbum favorito. Um raio de luz, se decompondo nas sete cores do arco-íris. Sentiu-se confortável. Um sentimento que nada no mundo conseguiria causar.
Voltou a cozinha, pegou uma faca e uma dose dupla de vodka com gelo. De volta ao quarto. Um último cigarro, uma ultima música, um ultimo suspiro. Deu play no toca discos. O som aveludado da agulha raspando o disco. Esvaziou o copo com um único gole. A música tocou.
Sentou-se a cabeceira da cama, uma perna fora do colchão. Ascendeu o último cigarro. E o metal frio lacerou a pele. Um pouco dolorido, a vodka anestesiou o corte. Dolorido, mas estranhamente prazeroso. Cortou um pouco mais fundo.
O sangue escorria pelo braço pendendo da cama. Sentia o coração bombeando generosas doses de sangue, que agora se esvaia do corpo. As batidas foram diminuindo. O corpo foi ficando frio, difícil de mexer. A calma foi se abatendo sobre ele. A luz estava ficando fraca? Olhou para a brasa do cigarro, quase apagada. Ou era apenas sua visão parando de trabalhar? O rufar do coração foi diminuindo.Tum,tum.tum. Frio. Muito frio. A mente anuviada. O quarto estava quase escuro. As piscadas lentas. Ouvia o plic ploc do sangue pingando no chão. Deveriam ser as ultimas gotas, pensou. A música parou. Ouvia a agulha ainda raspando o disco. Enfim o fim.
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