segunda-feira, 14 de maio de 2012

Diário do Viajante - 4


9 de junho de 1989.

E de repente, você acorda em um mundo só seu. Todas as coisas são suas, mesmo que você não use. Viajei por horas na rodovia vazia. Nenhum som de carro, ou motocicleta, ou qualquer outra coisa. Só eu o carro e o sol, que ia mudando devagar no céu. A única marcação de tempo que eu teria era a do sol, subindo e descendo no céu todos os dias. Na noite que passou, eu dormi no carro. Devo ressaltar aqui que foi amedrontador. Uma noite inteira, a beirada de uma rodovia, ouvindo o som do vazio. Parecia que até o vento havia parado. Mas logo eu adormeci. Acordei um pouco dolorido hoje, e segui viagem. Faltavam algumas milhas pra próxima cidade, onde eu poderia dormir em uma cama. Duas vezes liguei o rádio, na parca esperança de ouvir algo, mas nada se ouvia além do chiado ruidoso.
E foi assim durante todo o dia. Céu de brigadeiro, sem nuvens, um vento morno correndo pelas janelas abertas do carro, e o silêncio. Se existe algo que agora creio que pode nos deixar loucos em um curto espaço de tempo, é a impossibilidade de expressão. Ninguém para conversar, ninguém pra conversar, e ninguém pra conversar. E o silêncio no ar. O rádio sintonizando dentro da minha cabeça. As vozes das pessoas que eu conhecia falando como locutores, contando suas vidas.

E numa tentativa de parar tudo isso, cantei bem alto o versinho que eu sempre cantava quando falavam demais na minha cabeça :

“Eu sou livre para ser tudo que eu,
Tudo que eu escolho,
E eu cantarei o Blues se quiser,

Eu sou livre para dizer tudo que eu,
Tudo que eu gosto,
Se está errado ou certo está tudo bem”

E a viagem seguia, sem nada à atrapalhar-me. O sol já havia passado do meio do céu quando eu parei parar comer algo e mijar. Comer ali, sentado no asfalto quente, em meio a rodovia era estranho, causava-me uma estranha paz interior, uma calma.

E quando começou a escurecer, eu já conseguia avistar a cidade próxima, uma mini-metrópole, com prédios altos, e lojas de tudo o que se possa imaginar. Era ali que eu passaria a noite. Não no carro, ou na casa que até 5 dias atrás havia sido de alguém. Arrumaria um canto para dormir, em  uma loja de colchões Aproveitei o resto da luz do sol daquele dia, antes de chegar a cidade, pra consultar o mapa, e ver que ainda faltavam umas 700 milhas para a praia. Talvez mais um ou dois dias de viagem, um, se eu dirigisse do raiar do sol até a hora em que ele se deita.

Noxx, 9 de junho de 1989

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