segunda-feira, 18 de junho de 2012

Diário do Viajante - Fim.


19 de junho de 1989

Já faz uns dez dias que não escrevo nada por aqui. Acho que estou perdendo a noção da passagem do tempo.  Os dias passam, as horas se arrastam, o sol sobe e desce. A lua vem, e a noite se estende. Não fazia mais diferença viajar durante o dia e dormir durante a noite. No fim, era como se o tempo estivesse parado.
Eu cheguei ao litoral, finalmente. A viagem foi tranquila, entediante. E para minha enorme surpresa,  ao chegar realmente as praias, não havia vento ou ondas.  O mar estava parado, como um lago calmo, como o tempo ao meu redor.

Me instalei em um 5 estrelas, ali a beira mar. Nenhum som das ondas durante as quase 10 noites que passei por ali. Nenhum som, só minha respiração. Tão silencioso que , antes de adormecer, eu poderia jurar que ouvi o rufar do meu coração.

Me embriaguei durante todos esses dias, bebia até adormecer. Não escutava o som das ondas. As vezes o som do vento passando pela areia, sacudindo as folhas dos coqueiros, mas nunca o som característico do quebrar das ondas. Era como se o mar estivesse morto.  Me banhei no mar umas duas vezes. A água não era quente nem fria. Era apenas água. As fraturas que eu causava em sua superfície logo sumiam. O mar era um enorme espelho de água, inútil, morto.

E o que eu acabei percebendo nisso tudo, por mais estranho que fosse, era que eu desejava uma fuga, daquela vida chata, parada, insossa. E de certa forma eu havia conseguido.  Mas era realmente isso que eu almejava? Afinal, existia uma diferença entre ser só, e estar só.  Ser só era uma opção, e estar só não era nada bom.

E após todos os dias iguais, acordando com o gosto do álcool curtido na boca, e passando a maior parte do dia sentado na areia, esperando minha sombra estender-se até o escurecer, é que eu creio ter tido o entendimento da situação em que me encontrava.

Teoricamente, eu estava realmente ali, vivo, mas morto. É difícil explicar, mas vamos lá, afinal, creio ser este o último dos relatos. 

Então anoiteceu. Choveu naquela noite, escutei bem. Uma chuva contínua. Me acalmou. Afinal, alguma coisa estava acontecendo. E eu dormi, e sonhei. Não com algo fantástico, mas com minha vida normal. Pai, mãe, vida estudantil, os amigos, as garotas. Aquelas coisinhas bobas, aparentemente sem um valor real.

Acordei sabendo o que tinha que fazer.  Não tomei café,  não tinha vontade.  Nada de álcool também, embora pudesse ser um pouco mais divertido se eu assim fizesse.  Peguei um cigarro na lojinha do hotel, pra ir fumando no caminho. 

Estava de bem estar ao entrar no carro. O sol subia lá ao leste, eu me sentia confortavelmente bem. Em parte pelo cigarro, em parte pelo que estava prestes a fazer. Aliás, eu estava vivo, e não estava. 
E segui com o carro na estrada costeira,  curvas perigosas aquelas ali. Segui por aproximadamente um quarto de hora, eu não saberia dizer exatamente quanto tempo passou.
E a estrada começou a seguir na beira do penhasco. Dava pra ver bem o mar dali, com o sol refletindo sua luz nele, como um grande espelho branco e brilhante. O céu azul, salpicado com umas poucas nuvens, extremamente agradável. E o mar verde, bem intenso, agora começava a se mexer. Uma onda aqui, outra ali.

E como se tivesse sido construída pra mim, ali estava o que eu vinha buscando na estrada costeira. Quando o penhasco fazia um “ U “  e dava para ver o resto da estrada lá do outro lado, separando uma ponta da outra por um grande vão de água, e provavelmente pedras.  Era perfeito.

E ao ver a grande depressão na pedra,  comecei a acelerar o carro. Ascendi o que eu pensei ser meu ultimo cigarro, e deixei o volante. Não precisava mais ser guiado, encontraria o caminho sozinho.

Não senti medo quando o carro arrebentou as ferragens que protegiam a estrada a toda velocidade que conseguia alcançar. Nem quando ele se projetou com o capô para baixo, fazendo uma parábola decrescendo o abismo.

A água e as pedras se aproximando e um sorriso no meu rosto. Me preparei para sentir a água salgada nos pulmões, mas não foi isso que aconteceu.  Tudo ficou azul, e depois se apagou, Mas eu continuei respirando. Meu corpo ficou quente, incrivelmente quente, sem dor nenhuma, sem sinal de cansaço, e eu estava estranhamente confortável.  Não sabia em que posição eu me encontrava, meu cérebro estava confuso, como se tivesse sido ligado e desligado por agora.

Então eu abri os olhos. Putz,  foi como se eu tivesse estado com eles fechados por semanas. A luz foi cruel nos primeiros segundos, e depois, a imagem foi se montando. Um teto simples, com uma lâmpada pendurada ali, uma janela, com algumas das partes da persiana faltando. Era dali que vinha a luz.  E eu estava no meu quarto, atordoado , devo ressaltar. Nenhum barulho em lugar nenhum. Aquela luz deveria ser a primeira do dia.

Eu voltei ao ponto zero. Não saberia até tirar a prova. Fui devagar ao quarto dos meus velhos. Empurrei a porta uns 3 dedos, apenas para espiar lá dentro. A cama ainda ocupada. Dois volumes por baixo das cobertas, respirando calmamente, talvez naqueles últimos e melhores minutos dos sonhos, aqueles dos quais provavelmente não se lembrariam assim que acordassem.

Fui até a cozinha e me fiz um café. Foi como se eu nunca houvesse tomado um. Quente, deliciosamente espesso, encorpado e forte.  Fui até a porta de casa, saí na soleira e esbarrei com o pé em um jornal. Alguém o entregara ali. Os primeiros carros começavam a deixar as garagens para ir trabalhar.  A vida seguia girando. Voltei para casa, deixei o jornal em cima da mesa, perto do café,  já estava seguindo o corredor, de volta para o quarto, com uma caneca cheia de café. Minha mãe estava parada ali na porta do quarto, me olhando e sorrindo. Disse algo sobre eu ter dormido muito bem. Bem até demais. Devo ter deixado escapar um sorriso maior que o habitual pela cara de espanto que ela fez, e continuei a seguir para o quarto.

E a vida seguiu girando, como tinha de ser. Não era de tudo boa, mas tinha lá seus momentos, os bons e os ruins. Não há como fugir. Até hoje me pergunto se aquele sonho(se é que posso chamar assim) extremamente vívido, fez parte disso, ou se foi só coinscidência.
Nunca falei dele para ninguém. Permanece na minha memória, e em um diário que transcrevi-o. Talvez alguém o encontre um dia,leia e goste. Larguei-o acidentalmente na biblioteca outro dia. Enquanto isso, a vida segue rodando e rodando.

Noxx, 17 de dezembro de 1989


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