Como é bom não estar preso a nada nem a ninguém. Poder
observar com calma o doce definhar do meu corpo. As mãos, que agora passavam a
impressão de estarem sempre dormentes, mas ainda realizando movimentos, a tosse
que aumentava gradativamente semana após semana e o corpo findando cada dia
mais.
Agora não adiantava mais lutar. Lutar seria como parar de
fumar, quando se descobre um câncer incurável em um dos pulmões. Os cabelos iam
raleando, as mãos ficando cada vez mais magras, parecendo-se com aqueles antigos
esqueletos do laboratório de biologia, com a pele cobrindo os ossos como se
fosse uma fina camada de cera branca e doente.
Os olhos se afundam, a comida para de ter gosto, e o único gosto que me sobe a boca, é o gosto de morte, que vem junto com a tosse contaminada. Mas a vida ainda teimava em não me abandonar.
Eu nunca quis me curar do mal que havia afligido meu corpo. Na verdade, quando soube do maldito câncer, não me preocupei. As chances reais de cura, física e psicológica eram menores que trinta por cento.
Não há deus ou quimioterapia que te cure quando você já morreu, sacou?
Não parei com os cigarros, muito menos com a bebida. Não parei um segundo sequer para pensar na doença. Poderia sentir o pulmão ficando enegrecido, assim como passei a sentir todas as dores sendo anestesiadas pela bebida.
Era um caminho em linha reta, sem desvios, para a autodestruição. Eu queria respirar fumaça e sorver álcool puro.
E eu posso dizer que vivi. Vivi sem preocupações alheias, bobas. Poderia fumar maconha, tomar metanfetaminas com uma dose de tequila, e ainda sim estaria tudo bem. Eu estaria fodido, já estava fodido.
Tentei fazer tudo que não havia feito na vida. Nada de plantar árvores, ou escrever livros, só aproveitar aqueles últimos dois ou três meses.
E de todos os ditados que ouvi enquanto vivo, apenas um se mostrou verdadeiro, e foi bem ali, na maca do hospital, ligado no oxigênio, que eu me lembrei dele. Dizia o seguinte :
Os olhos se afundam, a comida para de ter gosto, e o único gosto que me sobe a boca, é o gosto de morte, que vem junto com a tosse contaminada. Mas a vida ainda teimava em não me abandonar.
Eu nunca quis me curar do mal que havia afligido meu corpo. Na verdade, quando soube do maldito câncer, não me preocupei. As chances reais de cura, física e psicológica eram menores que trinta por cento.
Não há deus ou quimioterapia que te cure quando você já morreu, sacou?
Não parei com os cigarros, muito menos com a bebida. Não parei um segundo sequer para pensar na doença. Poderia sentir o pulmão ficando enegrecido, assim como passei a sentir todas as dores sendo anestesiadas pela bebida.
Era um caminho em linha reta, sem desvios, para a autodestruição. Eu queria respirar fumaça e sorver álcool puro.
E eu posso dizer que vivi. Vivi sem preocupações alheias, bobas. Poderia fumar maconha, tomar metanfetaminas com uma dose de tequila, e ainda sim estaria tudo bem. Eu estaria fodido, já estava fodido.
Tentei fazer tudo que não havia feito na vida. Nada de plantar árvores, ou escrever livros, só aproveitar aqueles últimos dois ou três meses.
E de todos os ditados que ouvi enquanto vivo, apenas um se mostrou verdadeiro, e foi bem ali, na maca do hospital, ligado no oxigênio, que eu me lembrei dele. Dizia o seguinte :
“No fim verdadeiro, o bicho homem morre sozinho.”
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