sábado, 29 de setembro de 2012

Lua da Caçadora


Então era o fim de outubro. A primavera já havia feito seu trabalho, florescendo tudo o que os quatro ventos tocavam. São tempos de caçada.

Faz um tempo desde a última caçada. Meus cabelos foram encurtados e tingidos de preto, voltando assim a cor original, apenas para evitar qualquer suspeita. O estilo das roupas também é outro nestes tempos. Geralmente uma camiseta preta simples,  uns jeans rasgados bem justos, e um All-Star surrado, mas ainda sim confortável.

Os tempos mudam não é? A cinco anos, talvez seis, eu era uma garota que apanhava junto com minha mãe, quando meu pai chegava bêbado.  E agora, ainda uma garota, com um homicídio culposo e ficha criminal, e um estilo peculiar de se vestir.

Vejam bem, eu não tinha real intenção de matar aquele bêbado maldito, que eu costumava chamar de pai. Vi a sala toda quebrada, minha mãe caída no chão, provavelmente sem respirar. E parti pra cima dele. Eu era mais jovem e mais rápida, e ele estava bêbado. Era como estar em pé de igualdade em uma luta. O resto é meio anuviado em minha cabeça. Eu estava cega pelo ódio, pela vingança. Mas termina com minhas mãos em seu pescoço, e o pulmão dele sem ar.

Obviamente, eu não poderia ser presa. Meus pais tinham seguro de vida, e graças a deus, os agentes da seguradora tiveram pena da minha pessoa, e liberaram meu seguro. Mas apenas para quando eu me tornasse maior de idade.

Um lar para garotas e seções semanais de no psicólogo por 2 anos.  Eu mentia para o psicólogo. Tinha medo de ser taxada de louca. Aliás, de certa forma, eu tinha gostado de matar meu pai. O ecstasy, a adrenalina correndo pelo sangue. A visão e a linha de pensamento se tornam extremamente claras. Como diziam os vampiros, quando matavam uma vítima:
“ O sexo é apenas um vislumbre da sensação que nós temos ao matar! “
Sexo, que conheci ali mesmo, no lar para garotas, mas fica para outra ocasião.

Então eu me vi livre. Tinha dezoito anos, o dinheiro do seguro de vida dos meus pais ( que não era muito, só pra constar, mas dava para eu me virar ). Estranha a sensação de liberdade absoluta. Poder fazer o que quiser, quando quiser, ninguém pra regrar. Adorável e assustadora. 

Arranjei um apartamento barato, um que dava para pagar com o dinheiro do seguro, um emprego em uma loja de discos, e fui levando a vida.  Recebia dinheiro o bastante para ficar confortável. Podia comprar roupas, cigarros, e comer em bons restaurantes, se assim eu desejasse.  Mas eu não o fazia. Eu gostava era de ir aos pubs, beber cerveja barata, ver as bandas punks desconhecidas, me divertir.  Então eu comecei a pensar em assassinato. 

Lembrei-me da sensação de matar. O ecstasy, o frenesi. Um sentimento longínquo. Eu nem sabia que podia me lembrar com tanta clareza de uma sensação. A visão clara, todo o corpo pulsando junto com o pensamento, em uma sintonia perfeita. A ideia não me saiu da cabeça. Eu queria matar de novo, definitivamente. Teria de ser tudo bem pensado, afinal agora eu poderia ser presa.

                                                                  ***

O primeiro a quem matei, foi um carinha chamado Victor Jones. Um punkzinho bonitinho que eu via nos pubs que eu frequentava.  Os olhos verdes, cabelos castanho-claro,  um pouco mais alto que eu, devia ter um metro e oitenta de altura. Chegou me pedindo um cigarro, puxou papo, e se ofereceu para me pagar um uísque.  “O puto deve estar querendo me foder .”  Eu pensei . E não deu outra. Fomos para o meu apartamento, na moto velha dele.  Os beijos secos com gosto de cigarro. Pobre Jones, mal sabia que ia morrer aquela noite. Tiramos a roupa ainda de pé. Deitei ele na cama. Peguei o cinto na calça, sem ele ver, e disse para fechar os olhos, que eu faria uma surpresinha para ele.  Coloquei o cinto envolto no pescoço dele e voilá!  Ele não estranhou, achou que deveria ser um fetiche. Puto ! 

O animal preso na armadilha. A caçadora apenas esperando o momento certo.

Comecei a apertar o cinto. Além do que ele poderia imaginar. Enrolei-o nas duas mãos e comecei a puxar. Ele tentou se livrar, mas já era tarde demais.  A face começou a ficar roxa. Os olhos saltaram e não havia mais respiração. As pernas se mexiam como as de uma aranha que foi virada com as pernas para cima. E o ecstasy veio. Segurar o cinto até a última esperneada.  Sentir o coração parar. Então tudo cessou.

Eu estava nua e a adrenalina ainda corria pelo corpo, fazendo meus braços tremerem.  E agora eu tinha um corpo para me livrar.

                                                                               ***

Fumei um cigarro para apaziguar os nervos e olhei para o agora morto Victor Jones. Os olhos saltados, o rosto roxo azulado, congelado em uma última expressão de desespero.
O corpo ainda estava morno, começando a esfriar agora. Me vesti e fui a cozinha beber alguma coisa, uísque de preferência.

Encostada perto da pia bebericando um pouco de uísque e tragando o cigarro com vontade,  pensando em como me livrar do corpo. Cortar agora iria fazer o sangue escorrer, livrar-se de um corpo inteiro também não estava em vias de ser realizado.

A solução que encontrei foi esperar. Esperar a rigidez cadavérica tomar conta do corpo, o sangue endurecer, e então cortar embalar e despachar.

                                                                           ***

Trabalho feito, o corpo rígido e agora absolutamente esquartejado estava dividido em dois sacos de lixo negros embaixo da pia. Logo iria começar emanar dele o cheiro característico de morte e podridão. Teria que me desfazer dele logo, e já sabia como.  Coloquei jornais eu um monte de lixo misturado junto dos pedaços do pequeno Victor. Agora era só esperar o caminhão de lixo apontar na esquina, descer as escadas, e desfazer-me dos pedaços de corpo. Do lixo. Malfeito feito.
                                                                  ***

Agora era esperar. Esperar notícias de que um corpo foi encontrado esquartejado em algum lixão da cidade, esperar a policia dar indícios de que procuravam um assassino. Esperar. E pacientemente eu esperei, dez ou doze dias, talvez quinze e a único indício do meu ato, foi um cartaz de desaparecido, mas os jovens daquela idade as vezes fugiam de casa sem aviso, e os cartazes eram largamente ignorados. Talvez não o tenham levado para um lixão ou aterro, e o corpo tenha sido destruído dentro do caminhão, que prensava o lixo antes de se desfazer dele.

Eu não fiquei parada nesses dias, não , longe disse. Limpei o apartamento clinicamente em busca de indícios de que Victor Jones estivera lá. O lençol no qual nos deitamos e que algumas horas depois eu usei para cobrir o chão e corta-lo foi queimado num daqueles tambores que os mendigos usam para se aquecer. O quarto foi limpo com alvejantes obsessivamente. No caso de uma suspeita policial uma gota de sangue ou um fio de cabelo bastava para iniciar uma investigação séria. Então era melhor prevenir do que remediar.

E em meio a toda esta limpeza obsessiva, eu já me imaginava matando de novo. Tudo havia dado certo, sem um mínimo de suspeitas.

                                                                           ***

Loja de discos, casa, bar. Nenhum alvo novo, ninguém interessante. Já havia passado um mês desde o Victor, e até agora eu não havia matado mais ninguém.  Então, saindo do trabalho num fim de tarde de primavera, eu o vi. Foi uma paixão-de-morte a primeira vista. Quando o vi soube que queria mata-lo. Talvez por sua beleza diferente das demais, uma beleza natura, cheia de imperfeições.  A pele morena rosada era linda, os olhos grandes e castanhos claro eram vívidos e calmos, a boca era levemente desenhada e muito sensual e o cabelo era cacheado e muito negro.  Era como um querubin, mas não dos que serviam a deus, Se este fosse um deles, seria um servidor do demônio. Era lindo.  Sempre o encontrava saindo da loja de discos na qual eu trabalhava. Eu seguia pra casa, e ele seguia na direção oposta. Todos os dias eu olhava em seus olhos, e não era correspondida. O corpo andava por terra, mas a consciência era distante.  Então eu o segui. De longe claro, mas ele sequer pareceu perceber. Ele saiu da área de lojas do centro da cidade, e  seguiu pelos bairros residenciais do subúrbio, deve ter caminhado uns 15 minutos, quando ele mudou de direção, saindo da área residencial , e indo em direção ao campo de terra e vegetação onde geralmente as pessoas faziam pic-nic nos feriados.
Por lá, ele seguiu por outro caminho. Subiu um pouco mais pela área usada pra recreação se embrenhando no mato em que ninguém pisava e quase alcançava os joelhos, até chegar ao topo e se sentar em um lugar que parecia previamente preparado por ele.  E ele se sentou. Ficou ali olhando o por do sol, assistindo o céu mudando do azul claro para o alaranjado característico e logo depois indo para um tom azul ciano. Era ali que eu o mataria. No momento que o sol deixa a terra, dando lugar à noite. Afastei-me tentando não fazer barulho ou deixar muitas marcas no mato. Segui para minha casa, pensando em como fazer. Até agora eu só havia asfixiado as vítimas e agora eu queria algo diferente.
                                                                              ***
Eu o segui por mais uma semana. O amor platônico por ele e pela ideia de mata-lo floresceu a ponto de eu já poder sentir a eletricidade correndo por todo meu corpo. A rotina dele era simples.  Todos os dias, por volta das 17:20, ele passava em frente a loja, indo ver o por do sol no topo do morro. Eu não precisava saber mais que isso. Ninguém parecia saber o que ele fazia todo fim de tarde, de modo que se eu o matasse lá, a fuga seria relativamente fácil.
Fiquei impaciente no trabalho aquele dia, olhava o relógio em intervalos realmente curtos. Coloquei uma faca em minha bolsa mais cedo. Li em algum lugar que se eu cortasse a jugular, a veia que alimenta o cérebro com sangue oxigenado, o sangue se esvaia inteiramente do corpo em menos de quatro minutos. Era isso que eu iria fazer.
Fumei um cigarro na esquina, esperando ele passar do outro lado. E ele veio. Os cabelos negros reluzindo ao sol, os olhos grandes e bonitos com uma expressão sonhadora, aquele ali era um dos que andavam com a mente longe.
Novamente eu o segui, hoje tomando cuidado para que ninguém nos seguisse. E refizemos o mesmo caminho, área de lojas, o subúrbio residencial, e o espaço verde livre onde as pessoas iam nos fins de semana e feriados para fazer pic nic e respirar um ar puro. Segui-o até o topo do morro, observei-o sentar-se  e fui me aproximando devagar.  O mato estava baixo, fazendo uma pequena trilha, por onde segui quase silenciosamente. Os últimos raios de sol o iluminavam sentado ali, era como se ele estivesse sentado na mão de deus, tendo o seu momento de perfeição. Peguei a faca na bolsa silenciosamente, desenrolando-a da camisa que usei para esconder. Cheguei mais perto, respirando o mínimo possível. Se ele não vivesse naquele aparente estado de sonhar-acordado, talvez tivesse me ouvindo.
E o metal cortou a carne. Segurei a boca dele para um eventual grito, que não ocorreu. A faca cortou toda a extensão do pescoço profundamente. Pensei tela sentido roçar em um osso, mas foi só impressão.  E o sangue jorrou quente, o cheiro me envolvendo como uma névoa. Um cheiro metálico, vivo. O sentimento familiar do pós-assassinato correndo na minha pele, a clareza incrível dos pensamentos que permeavam minha mente no momento. O fim do momento dele e o começo do meu, unidos por uma palavra que definiria tudo. Perfeição. Talvez liberdade, em alguma outra interpretação.

Fiquei ali por mais uns minutos me deliciando com as sensações no corpo e vendo a lua subir. A lua estava grande e avermelhada, como o ar envolto em cheiro de sangue. Era a Lua da Caçadora.

                                                                          ***

*PS* - Pretendo continuar o texto como um romance policial. Mas fica aqui o começo, como um conto de apresentação.

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