O sol vai descendo no céu e a fumaça do cigarro vai saindo oníricamente do meu nariz, azulada, se misturando com o último azul do céu. A noite vem chegando e o Blues da piedade toca ao longe. Posso ouvir o coro cantando o refrão.
“Vamos pedir piedade, senhor piedade, pra essa gente careta e covarde.”
O cigarro vai acabando junto com o dia, e o frio começa a arranhar meu peito nu, e um pequeno arrepio se forma e desce até as minhas pernas. Brinco com um furinho no jeans surrado. O ar esfria mais, deixando a fumaça que adentra em meus pulmões mais densa.
Me coloco sentado na grama e abotoo a camisa para fugir do frio. Os grilos cricrilando anunciam a chegada da noite. O sol já se foi e ainda não há lua nem estrelas. O lago ali perto está mortalmente calmo, como um grande espelho negro congelado, nada se move abaixo dele.
A escuridão se torna absoluta. Céu absolutamente negro. Nenhuma estrela e nenhuma luz. A escuridão se reflete infinitamente na face do lago. Dá pra respirar escuridão, de tão palpável. Não dá pra ver nada a um palmo dos olhos, mas se você quiser, pode sentir. Alguns minutos para o espetáculo. Meus pés me levam para a beira do lago. A brasa do cigarro é a única luz no antro da escuridão, pairando como um vagalume alaranjado e solitário.
A primeira estrela se ascende no céu, e sua gêmea é refletida na superfície do lago. E as outras vão surgindo pipocando no céu.
E um ou dois cigarros depois, o céu está completamente estrelado, e perfeitamente refletido na superfície espelhada do lago. Me encontro na beira do lago, mas já não é mais um lago. Estou de frente para um universo. Não dá pra identificar onde termina o céu e começa o lago. A realidade é sutilmente alterada.
Nenhum reflexo pálido da lua. Me abaixo e pego uma pedra. Ou seria um pequeno meteoro? Whatever. Atiro ele no lago, e pequenas ondas se formam. É como chegar aos confins do universo, e abalar a fina camada que o separa de uma corrente incessante de éter.
O blues da piedade toca na minha cabeça.
“Quero cantar pras pessoas fracas, que tão no mundo e perderam a viagem.”
Agora é como se a escuridão fosse uma colcha furada sob o sol. Os grilos voltam a cricrilar, e as mãos maquinalmente tiram outro cigarro do maço. A fumaça azulada permeia por entre os milhões de pontos de luz. Já deveria ser horas de voltar pra casa. O caminho é longo, mas vou cantando o blues da piedade. Sempre o blues.
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