Ando procurando um amigo para o fim do mundo. É horrível quando os teus passam para o lado da inexistência, e acredite, isso aconteceu mais vezes do que eu gostaria. E enquanto esse amigo não vem, Shine On You Crazy Diamond toca alto nos meus fones. O tempo a minha volta não é mais o mesmo, ora ele desacelera, me dando margem pra aproveitar o que quer que eu esteja fazendo, ora acelerando-se de tal maneira que chego a me esquecer de quando foi a última vez em que me deitei para dormir.
Três dias viram em um. Não encontro o que quero até parar de procurar. Tem sido assim desde a morte de Lucas, a quase 3 meses. O ano letivo terminou e as férias vão se arrastando por um dezembro quente e chuvoso. Comprei um ventilador e permaneço em casa, ouvindo música e só.
A polícia não encontrou nada acerca do atropelamento. Nada. A escola declarou luto no dia do funeral,e assim, todos os amigos que quisessem poderiam ir prestar suas últimas homenagens. Devo ressaltar que fui o único da escola a ir, e foi lá que conheci os seus pais, que para minha surpresa, me conheciam. Ele parecia-se demais com a mãe, só que com feições menos delicadas, e não parecia-se muito com o pai, só na cor do cabelo. Enquanto eu servia-me de um café, e recebia um convite da mãe de Lucas para uma visita, uma garota adentrou a sala. Aparentemente não conhecia ninguém, mas estava chorando. Lucas nunca me disse nada de uma amiga do colégio, e eu estranhei. Ela deu uma olhada no caixão e se foi. Mas isso tem quase três meses e o tempo está estranho.
***
Dois dias depois do natal, eu recebi uma ligação, o que era raro, porque a única pessoa que me ligava era o Lucas. Quem havia ligado era uma garota. " Meu nome é Marina" ela disse. Obviamente ela não sabia para quem estava ligando. Uma ideia foi se formando devagar em minha cabeça. Ela me perguntou meu nome, e eu disse sem rodeios. Ela ficou em silêncio, por um minuto talvez. Então ela desabou em falar. Disse que havia encontrado o número em um papel cheio de floreios, perto de onde um rapaz morto fora encontrado. Não podia ser.
Agora era eu quem demoraria a responder. Me passou pela cabeça que ela poderia ser a garota que vi no funeral, e a perguntei exatamente isto. Na mosca, era ela. Ela disse que queria conversar. Por deus, como eu gostaria de conversar. Desde a morte do Lucas, eu não havia trocado palavras com ninguém, apenas chorado. Também disse que queria me mostrar algo, e se no dia seguinte estava ok pra mim. Marcamos um encontro na saída da cidade, e ela me disse para levar uma bicicleta.
***
É estranho pegar a bicicleta depois de tanto tempo sem sair pra passear com ela. Lubrifiquei as correntes secas e tirei a poeira que se acumulou ao longo dos meses. Saí pro dia ensolarado. Tinha me esquecido de como era a sensação. O sol no rosto, me fazendo cerrar os olhos, e o vento lambendo meu rosto. Era como que sonhar liberdade.
Nos encontramos na saída dos bairros residenciais pro centro da cidade, como o combinado. Quando a vi, mesmo que de longe, percebi que definitivamente era a garota que eu tinha visto no funeral. Os cabelos eram negros não muito longos e cacheados. As sobrancelhas eram levemente arqueadas, e davam aos olhos castanho-amendoados um ar de desconfiança. Era bem bonita, talvez um pouco exótica.
- Oi - Ela me disse, como alguém que está animado.
- Oi - tentei responder no mesmo tom.
- Vamos então né? Tenho uma coisa para te mostrar.
Então saímos andando e ela foi na frente. O vento batia em seus cabelos, fazendo-o soltar um cheiro que eu poderia jurar ser de maçã-verde. Achei cheiroso e divertido. Pegamos o caminho da estrava velha, o Limbo. Foi onde encontraram ele. Minha cabeça começou a se turvar, tive que tomar cuidado para não cair da bicicleta. A carga de pensamentos era absurda, beirando a insanidade.
Vez ou outra Marina olhava para trás sorrindo com o cabelo no rosto, me incitando a ir mais rápido. Nesses momentos breves minha mente esvaziava-se, talvez por eu me concentrar no sorriso, que era meio bobo e lindo.
A estrada velha poderia ser comparada aos meus dias, pois estava sempre vazia, e exceto por nós naquele dia, nada mais passava por ali. Ela me disse para eu me soltar, porque eu estava pedalando aparentemente sem vontade. Como alguém pode perceber isso? Decidi me soltar.
Meio que previ o que ela me mostraria,então decidi relaxar. A tensão viria, hora ou outra. Comecei a pedalar com mais afinco até emparelhar com ela, e nossas trocas de olhares sugeriam uma brincadeira. E começamos a entrelaçar o caminho que as bicicletas seguiam, formando o símbolo do infinito infinitas vezes no chão. Era divertido libertador e bonito, um daqueles momentos para se guardar, por mais simples que fosse. E percebi que estava sorrindo de volta todas as vezes em que Marina me sorria. Eu estava sorrindo. Meio que nos últimos meses eu não tive motivos pra sorrisos. Por deus, como era bom.
Ela começou a diminuir. Eu estava ofegante, e ela , com uma fina linha de suor na testa, sendo refletida pelo sol.
- Estamos quase lá - Ela disse. Estava respirando rápido.
Assenti com a cabeça e continuamos o caminho por mais uns dez minutos.Ela me olhou diferente desta vez. Era hora de parar. Não dava para ver a cidade e tampouco os bairros residenciais. O Limbo literal. Nem céu, nem inferno. Nem centro nem bairro. A solidão ali era esmagadora. Foi a estrada por onde Lucas caminhou pela última vez.
Fiquei parado, não queria me aproximar mais. Fiquei travado, com um nó formado em minha garganta. Não sei por quanto tempo fiquei parado, mas me assustei quando ela me puxou pela mão. Mesmo assim me deixei levar.
Ela puxou-me até um trecho em específico do asfalto, um trecho com manchas escuras, quase desaparecidas. Minha mente turva-se de novo, meu corpo se recusa a me responder.
- Foi aqui que aconteceu, bem aqui - ela disse apontando para a mancha, agora quase sumida no chão. - Eu estava ali atrás, no mato alto, me aliviando. - o rosto se enrubesceu ao completar.
- Eu quis ajudar, mas não pude, que deus me perdoe - As lágrimas pulavam de seus olhos e evaporavam rápido ao tocar no asfalto quente.
Ela tinha visto tudo. Tudo. A um ou dois meses atrás, a precisão com que ela tratou do assunto teria me ferido, mas hoje não. Antes de perceber, eu estava chorando junto a ela. Ela terminou de contar a história. Falou dos rapazes, do espancamento e depois do atropelamento. Disse que os rapazes usavam uniforme escolar, mas que não conseguiu ver os rostos. E nem a placa da caminhonete.
Ela me perguntou o que eu era do Lucas. E obviamente respondi. Ela não se chocou, ao invés disso, me deu um abraço. Abraçar, também tinha me esquecido de como era fazer aquilo. De certa forma, tínhamos um entendimento, um muito íntimo. Ainda abraçados, ela me perguntou se deveríamos ir a polícia, mas sem rostos pra identificar e números de placa pra pesquisar, a busca se tornaria inútil, só serviria pra trazer (não tão) velhos fantasmas. E além do mais, o ano letivo havia terminado, como apenas os rapazes do terceiro colegial podiam dirigir, os desgraçados que haviam cometido tal atrocidade, provavelmente agora estavam longe, na faculdade. Droga, como eu odiei esses caras, quem quer que fossem.
Sentamos um pouco a beira da estrada pra conversar. Nenhum carro passa. Ela me diz que gosta de passear pela estrada velha porque isso a faz pensar. Talvez fosse
e por isso que Lucas havia voltado caminhando por lá aquele dia. O fim do ano/mundo estava chegando, eu não estava animado pra fazer qualquer coisa. Ia fazer o que fiz em todas as noites do verão: Dormir e ouvir música.
Marina me convidou para ir a uma festa-baile de fim de ano. Ela era um ano mais velha que eu, e tinha se formado, não na minha escola, claro. Ela me disse que eu não precisava responder hoje, e que me ligava no dia seguinte para obter minha resposta. Eu aceitei. O caminho da volta nós fizemos mais devagar, aproveitando a compania e o sol que começava a se por. Quando nos separamos já estava escuro. Dei um adeus com as mãos, sem muitas palavras, que ela retribuiu entusiásticamente. Ela me ligaria no dia seguinte.
***
Eu nunca passava o ano novo fora. Geralmente papai e mamãe me deixavam ir a algum lugar do meu gosto. Eu passaria com Lucas este ano mas, bem, você sabe. Marina me ligou no dia seguinte, e eu quis ir ao baile com ela. E como eu quis. Nos dias que antecederam a festa-baile ela não saiu da minha cabeça. O cheiro de maçã verde no cabelo, o sorriso bobo, e até a voz ao telefone.
Me compraram uma roupa nova pro ano novo, bonita até. Eu não sentia essa ansiedade a tempos. A noite enfim chegou e eu fui ao encontro dela. Fomos de ônibus para a festa-baile, porque nenhum tinha habilitação. Nós dançamos, bebemos para nos refrescar, dançamos, rimos, nos divertimos, fui apresentado a alguns amigos. Foi uma ótima noite. E depois da meia noite, quando dançávamos nossa última música antes de ir, ela chegou bem pertinho do meu ouvido e disse:
- Essa noite nós somos jovens meu bem, e podemos colocar o mundo em chamas.
Com a testa encostada na minha, ficamos ali, girando, sendo jovens o resto da noite, suspenso no tempo pelo momento. Não me esquecerei de Lucas, não. Mas agora, com minha testa colada na dela, e nossas bocas se aproximando, eu já não posso prometer nada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário