sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Limbo



O sangue escorrendo da boca do rapaz não o impede de continuar cantando ou rindo.

- Vamos pedir piedade, senhor piedade, pra essa gente careta e covarde -

Um dos quatro rapazes, aparentemente o mais velho, encaixa um chute na boca do rapaz que está no chão sendo espancado. Consigo ouvir daqui a respiração arquejante dele, juro que se eu chegar um pouco mais perto posso sentir o cheiro do sangue.

Estamos no “limbo”, essa parte que liga o centro da cidade nos bairros residenciais. Embora ela seja o caminho mais rápido que liga esses dois locais, ninguém mais a usa, porque a estrada nova tem condições melhores e sinalização.  Ninguém exceto eu e um ou outro moribundo que vaga por ai.

Ouço os caras gritando com o garoto no chão “Toma essa seu bicha.”  Eu queria ligar para a polícia, mas a cabine telefônica mais próxima devia estar a uns 10 quilômetros ou mais dali. Continuei abaixada naquela moita onde eu havia parado para fazer xixi. Se eu saísse detrás do mato, era perigoso algum dos rapazes me ver e querer fazer algo comigo. Permaneci abaixada.

Merda, não passa nenhum carro. O rapaz no chão não ri nem canta mais, o que ouço da respiração dele me preocupa, é como se o pulmão estivesse cheio de sangue. Levando um pouquinho o pescoço e vejo que os caras mais velhos usam uniforme escolar, mas não consigo identificar de qual instituição se trata. O rapaz no chão usa o mesmo uniforme.

Ouço passos e depois as portas de um carro batendo. É uma caminhonete Ford modelo de luxo 89. Eu simplesmente não acredito que os desgraçados ainda farão aquilo. O cara no chão não esboça uma reação quando os pneus começam a queimar o asfalto, fazendo barulho. Então a caminhonete acelera e o atropela, continuando seu caminho pela estrada.

Devo ter demorado uns três minutos para processar o que eu tinha acabado de ver e ouvir.  Quando me levantei, peguei minha bicicleta no mato alto. Putz, sorte que os desgraçados não tinham visto. Corri o mais rápido que pude até o garoto.

Aquela imagem nunca sairia da minha mente. Chorei sem saber porque, talvez compadecida com a injustiça ali imposta. Os braços e pernas estavam quebrados e em ângulos estranhos, e o rosto, por deus, aquele rosto. Os dentes estavam encharcados de sangue, que agora começava a secar, e ele parecia sorrir. Os olhos, graças a deus, estavam fechados, pareciam em paz, contradizendo todo o resto.  A carteira havia saltado de um dos bolsos, provavelmente na hora do atropelamento. Eu a peguei e abri. Lucas Di’Angelo era seu nome. Tinha 16 anos. Um anjo ensanguentado na estrada.

Havia um papelzinho com um telefone anotado e alguns floreios, que eu anotei. Eu não pude fazer nada. Só uma garota que parou pra fazer xixi, e viu coisas que não queria.  Chorei muito até chegar na cabine telefônica, e mais ainda, quando só disse que havia um corpo na estrada.

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