quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Marlboro


   

- Amor, o cigarro acabou - eu disse - Tu quer que eu compre mais?
-Pode comprar amor, mas compra do que eu gosto - ouvi sua voz vinda do corredor. Obviamente ela queria Marlboro, e eu também.

Saí na chuva fina, a loja de conveniência mais próxima era a mais de um kilometro. O ar estava frio, agradavel de se respirar e a chuva fria só acariciava meu rosto.Viro uma esquina e depois outra, ouvindo a voz dela na minha cabeça:

"- Compra do que eu gosto -"

Eu gosto de Marlboro, e acho que estou esquecendo de algo. A chuva fica um pouco mais forte, minhas roupas estão úmidas e estou com um pouco de frio. Devo estar na metade do caminho. Vou cantarolando Singin' in the Rain, sem a coreografia, obviamente. Nem tenho um guardachuva.

Avisto a lojinha de conveniência, a vejo um pouco embaçada, talvez por causa da chuva. As luzes laranjas parecem mini-soís na névoa que a chuva produz em sua volta, e as luzes laranjadas misturam-se divertidamente no azul da noite. As luzes da loja são brancas e sem graça.
A atendente me olha estranho quando entro ligeiramente encharcado e peço um maço de cigarros, e dos mais caros. Deve ter me achado maluco por andar tão tarde assim na chuva. Entrego o dinheiro a ela, e acho que estou esquecendo algo, mas os cigarros estão no meu bolso.
A chuva já cessou, mas eu ainda estou molhado. Caminho mais rápido na volta pra casa, porque quero vê-la logo e dar a ela um cigarro. Vou sorrindo, esqueci a música que vim cantarolando.
O sorriso se apaga, quando adentro na sala quente e seca da minha casa.

- Amor, cheguei, trouxe nosso cigarro - digo.

A resposta não vem, e me lembro do que tinha esquecido. Os dois comprimidos de Paliperidona. O meu amor não existe, mas eu ainda gosto de Marlboro. Vou pra cama, pego dois comprimidos no meu criado mudo, e engulo sem água. A fumaça vem depois.

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