Ciclos são fenômenos que se sucedem em uma ordem pré-determinada, como no caso do ciclo das estações. Mas os ciclos em si estão inseridos em vários outros ambientes. Quase todos, para falar a verdade. Não duvido que as coisas que contarei aqui já aconteceram incontáveis vezes. Talvez tenha acontecido até com você caro leitor!
Cresci nos subúrbios de Belo Horizonte, papai e mamãe não gostavam de morar muito ao centro, devido ao barulho e poluição. Eu brincava pelas ruas, andava de bicicleta, soltava pipa em agosto e ia ao clube com meus pais no verão. Uma criança de 11 anos normal.
E foi em uma dessas idas ao clube, brincando que eu topei com o Eduardo. Era um garoto da minha idade, 11 anos na época. Era um pouco mais alto que eu, ele brincava sozinho em um balanço e eu fui brincar perto. Logo estávamos conversando e brincando como qualquer criança de 11 anos faria naturalmente.
Eduardo mora bem perto da minha casa, duas ruas acima. Marcamos de andar de bicicleta e tudo mais. E o tempo passou. Eduardo frequentava a minha casa, trocávamos fitas de vídeo game, revistas em quadrinhos do Homem Aranha e do Batman. Até hoje me lembro da primeira playboy que vi na vida, cortesia do Eduardo é claro.
Me mudei
para nova escola, ali nos arredores de casa, no ano seguinte. Lembro-me de
pedir minha mãe para falar com a diretora para me colocarem na sala do Dudu,
tendo em vista que o meu único amigo me ajudasse na nova escola. Fazíamos as
provas juntos, andávamos juntos no recreio, amigos inseparáveis. Aqueles anos
de escola foram os melhores da minha vida, sem dúvida. Eu aprendia coisas
incríveis com o Eduardo, enquanto ajudava ele a não ser reprovado em História e
Português, ao passo que ele, hábil com números, sempre me passava as colas de
Matemática.
O ensino fundamental voou, e de repente era nossa formatura do ginásio. Lembro do Dudu comentando comigo que surrupiara duas garrafas de vinho, uma para mim e outra para ele, pra nossa festinha particular. Depois de 40 minutos de discursos dos oradores da turma, e risinhos meus e do Dudu observando quais das meninas tinham os seios maiores ou as nádegas mais firmes, era nossa vez de subir ao pódio para sermos homenageados, pois nosso trabalho de ciências havia sido o melhor do ano. Dadas as comemorações, disse a minha mãe que dormiria na casa do Eduardo. Ela, feliz, orgulhosa por seu filho ter completado mais uma etapa, aceitou de bom grado.
Passamos na casa do Dudu pra pegar as garrafas de vinho, não tinha ninguém lá. Eu só tinha visto o pai e a mãe dele uma vez, e fora muito breve. Seguimos com as garrafas para um parque ecológico próximo, e como o Dudu dizia, naquela noite passaríamos de garotos para homens.
O vinho era bom, e estava bem gelado, não me lembro bem de como eu fiquei bêbado, mas para uma primeira vez, achei meio horripilante, tudo rodando, até de olhos fechados. Ouvia o Dudu rir, e as vezes ria com ele, ria dele. Terminamos a noite em uma linha de trem abandonada que tinha lá no final do bairro. Dois jovens de 16 anos, trôpegos, andando pela linha e ao mesmo tempo fora dela, com garrafas de vinho vazias nas mãos. Lembro-me de ter perguntado ao Dudu: “ E agora cara, o que vai ser da gente ano que vem?”.
O fim do ano veio logo depois, e com ele, a viajem que meus pais faziam ao interior de minas para visitar meus avós maternos, pois eu havia perdido os avós paternos antes de nascer. Geralmente esta viagem durava duas semanas no máximo, mas esta talvez fosse um pouco mais longa, porque meu avô estava doente e cuidaríamos dele, como me pai me disse quando estávamos colocando as malas no carro, aquele poderia ser um último adeus. Todos os anos anteriores eu não me importava em ir, afinal, eu adorava meus avós, mas esse ano, eu queria ter ficado por lá com o Eduardo, ao menos uma vez, ter passado as festas com ele, ver como era e tudo mais. Sempre quando eu chegava de viagem, ele me contava das garotas que tinha beijado, e eu, como sucedera a viagem e de uma ou outra garota com quem eu me encontrava no interior.
Então o colegial chegou. Dudu e eu ficamos em duas turmas diferentes, fiquei um pouco receoso no início, mas constatei que seria bom pra gente conhecer gente nova, fazer novos amigos etc. Sempre nos encontrávamos no intervalo entre as aulas. Dudu me levou pra matar a primeira aula. Fomos ao cinema, na matinê de Exterminador do Futuro 2*. O pessoal da minha turma era legal, bem parecidos comigo, os mesmos gostos literários, visões políticas e e tendências musicais, acabei fazendo vários amigos com os mesmos ideais.
A medida que o colegial avançava, Dudu e eu distanciávamos. Era pouco, mas lá pelo fim do primeiro ano do colegial, já estava tudo diferente. Ainda nos encontrávamos no intervalo, Dudu e eu, mas vez ou outra, nossos outros amigos nos tomavam um do outro, ou por vezes, limitávamos-nos a comer. Perguntei a ele o que estava acontecendo, e ele disse algo sobre o fim de um ciclo e o início de outros, vários outros. Mas continuávamos amigos, ele ainda ia a minha casa, e por vezes, saíamos juntos para uma lanchonete ou um show ali na Praça da Estação. Talvez a amizade estivesse só evoluído, ou talvez estivéssemos bebendo demais e falando menos.
Passamos as festas juntos nesse ano, fomos ver os fogos na Pampulha, foi fantástico. Dudu nunca tinha ido ao Iate clube, e desta vez, meus pais o convidaram. Lembro-me do abraço apertado que o Dudu me deu e foi deveras retribuído. Estávamos muito felizes aquela noite, jovens, imortais.
O ciclo fechou-se, o segundo ano do colegial começou, e o Dudu foi para as turmas de exatas, onde ele se dava bem, e eu, para as ciências humanas. Eu estudava política e socioeconomia e história, enquanto ele estudava a pureza de materiais, coeficientes, e números números e mais números. Eu já tinha vários amigos do ano que havia passado, e Dudu também, ele tinha arranjado até uma namorada. Claro, ele me apresentou como seu melhor amigo, e fiquei realmente feliz pelos dois.
Tínhamos cada vez menos tempo um com o outro. Namorada, estudos, e eu passei a me interessar até demais pela política, acompanhando avidamente o futuro do pais pelas mãos do presidente Collor. Cheguei até a viajar com o pessoal do colegial pra participar do movimento dos Cara-Pintadas. Foi um ano corrido, quase não encontrei o Eduardo, e nos tempos que via, ele sempre trazia a namorada enganchada nos braços. Creio que ele mudou de namorada duas vezes nesse tempo.
Eu não vi o terceiro ano passar, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Eu tinha uma namorada muito legal, bonita, nesse ano eu vi o Dudu duas vezes, nas duas, havíamos saído de casal e não nos apresentávamos mais como melhores amigos. Soava meio infantil. Não pude contar pro Eduardo como foi minha primeira vez, aliás, não contei a ninguém, que fique por aqui o segredo!
Nossa formatura do colegial chegou. Houve um baile. Vi o Eduardo, agora quase parecendo um adulto em seu smoking, dançando com sua namorada. Fomos dançar perto, dançamos juntos, eu e minha namorada, e Dudu e a dele. Não mencionamos o que fazer depois da festa, que provavelmente, já estava em seu fim. Ouvi várias pessoas dando “Adeus”. Mas quando o momento chegou, bem, era hora de fechar outro ciclo. Quando saímos da escola, lá pelas duas da madrugada, Dudu estava do lado de fora, com um cigarro aceso. E eu fiz a mesma pergunta que havia feito ao que agora pareciam cem anos. “ E agora Dudu? Vamos fazer o que cara?”
Fui embora puto da vida aquele dia. O Eduardo havia me dito que não pretendia seguir carreira agora, que queria mesmo era se casar com a Laura, sua namorada, e talvez, até mesmo ter filhos. Ele disse que ia trabalhar e juntar uma grana pra se casar e morar com ela.
O ensino fundamental voou, e de repente era nossa formatura do ginásio. Lembro do Dudu comentando comigo que surrupiara duas garrafas de vinho, uma para mim e outra para ele, pra nossa festinha particular. Depois de 40 minutos de discursos dos oradores da turma, e risinhos meus e do Dudu observando quais das meninas tinham os seios maiores ou as nádegas mais firmes, era nossa vez de subir ao pódio para sermos homenageados, pois nosso trabalho de ciências havia sido o melhor do ano. Dadas as comemorações, disse a minha mãe que dormiria na casa do Eduardo. Ela, feliz, orgulhosa por seu filho ter completado mais uma etapa, aceitou de bom grado.
Passamos na casa do Dudu pra pegar as garrafas de vinho, não tinha ninguém lá. Eu só tinha visto o pai e a mãe dele uma vez, e fora muito breve. Seguimos com as garrafas para um parque ecológico próximo, e como o Dudu dizia, naquela noite passaríamos de garotos para homens.
O vinho era bom, e estava bem gelado, não me lembro bem de como eu fiquei bêbado, mas para uma primeira vez, achei meio horripilante, tudo rodando, até de olhos fechados. Ouvia o Dudu rir, e as vezes ria com ele, ria dele. Terminamos a noite em uma linha de trem abandonada que tinha lá no final do bairro. Dois jovens de 16 anos, trôpegos, andando pela linha e ao mesmo tempo fora dela, com garrafas de vinho vazias nas mãos. Lembro-me de ter perguntado ao Dudu: “ E agora cara, o que vai ser da gente ano que vem?”.
O fim do ano veio logo depois, e com ele, a viajem que meus pais faziam ao interior de minas para visitar meus avós maternos, pois eu havia perdido os avós paternos antes de nascer. Geralmente esta viagem durava duas semanas no máximo, mas esta talvez fosse um pouco mais longa, porque meu avô estava doente e cuidaríamos dele, como me pai me disse quando estávamos colocando as malas no carro, aquele poderia ser um último adeus. Todos os anos anteriores eu não me importava em ir, afinal, eu adorava meus avós, mas esse ano, eu queria ter ficado por lá com o Eduardo, ao menos uma vez, ter passado as festas com ele, ver como era e tudo mais. Sempre quando eu chegava de viagem, ele me contava das garotas que tinha beijado, e eu, como sucedera a viagem e de uma ou outra garota com quem eu me encontrava no interior.
Então o colegial chegou. Dudu e eu ficamos em duas turmas diferentes, fiquei um pouco receoso no início, mas constatei que seria bom pra gente conhecer gente nova, fazer novos amigos etc. Sempre nos encontrávamos no intervalo entre as aulas. Dudu me levou pra matar a primeira aula. Fomos ao cinema, na matinê de Exterminador do Futuro 2*. O pessoal da minha turma era legal, bem parecidos comigo, os mesmos gostos literários, visões políticas e e tendências musicais, acabei fazendo vários amigos com os mesmos ideais.
A medida que o colegial avançava, Dudu e eu distanciávamos. Era pouco, mas lá pelo fim do primeiro ano do colegial, já estava tudo diferente. Ainda nos encontrávamos no intervalo, Dudu e eu, mas vez ou outra, nossos outros amigos nos tomavam um do outro, ou por vezes, limitávamos-nos a comer. Perguntei a ele o que estava acontecendo, e ele disse algo sobre o fim de um ciclo e o início de outros, vários outros. Mas continuávamos amigos, ele ainda ia a minha casa, e por vezes, saíamos juntos para uma lanchonete ou um show ali na Praça da Estação. Talvez a amizade estivesse só evoluído, ou talvez estivéssemos bebendo demais e falando menos.
Passamos as festas juntos nesse ano, fomos ver os fogos na Pampulha, foi fantástico. Dudu nunca tinha ido ao Iate clube, e desta vez, meus pais o convidaram. Lembro-me do abraço apertado que o Dudu me deu e foi deveras retribuído. Estávamos muito felizes aquela noite, jovens, imortais.
O ciclo fechou-se, o segundo ano do colegial começou, e o Dudu foi para as turmas de exatas, onde ele se dava bem, e eu, para as ciências humanas. Eu estudava política e socioeconomia e história, enquanto ele estudava a pureza de materiais, coeficientes, e números números e mais números. Eu já tinha vários amigos do ano que havia passado, e Dudu também, ele tinha arranjado até uma namorada. Claro, ele me apresentou como seu melhor amigo, e fiquei realmente feliz pelos dois.
Tínhamos cada vez menos tempo um com o outro. Namorada, estudos, e eu passei a me interessar até demais pela política, acompanhando avidamente o futuro do pais pelas mãos do presidente Collor. Cheguei até a viajar com o pessoal do colegial pra participar do movimento dos Cara-Pintadas. Foi um ano corrido, quase não encontrei o Eduardo, e nos tempos que via, ele sempre trazia a namorada enganchada nos braços. Creio que ele mudou de namorada duas vezes nesse tempo.
Eu não vi o terceiro ano passar, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Eu tinha uma namorada muito legal, bonita, nesse ano eu vi o Dudu duas vezes, nas duas, havíamos saído de casal e não nos apresentávamos mais como melhores amigos. Soava meio infantil. Não pude contar pro Eduardo como foi minha primeira vez, aliás, não contei a ninguém, que fique por aqui o segredo!
Nossa formatura do colegial chegou. Houve um baile. Vi o Eduardo, agora quase parecendo um adulto em seu smoking, dançando com sua namorada. Fomos dançar perto, dançamos juntos, eu e minha namorada, e Dudu e a dele. Não mencionamos o que fazer depois da festa, que provavelmente, já estava em seu fim. Ouvi várias pessoas dando “Adeus”. Mas quando o momento chegou, bem, era hora de fechar outro ciclo. Quando saímos da escola, lá pelas duas da madrugada, Dudu estava do lado de fora, com um cigarro aceso. E eu fiz a mesma pergunta que havia feito ao que agora pareciam cem anos. “ E agora Dudu? Vamos fazer o que cara?”
Fui embora puto da vida aquele dia. O Eduardo havia me dito que não pretendia seguir carreira agora, que queria mesmo era se casar com a Laura, sua namorada, e talvez, até mesmo ter filhos. Ele disse que ia trabalhar e juntar uma grana pra se casar e morar com ela.
Não tive
notícias do Eduardo por um ano quase inteiro, e ele morava duas ruas atrás da
minha. Eu ainda namorava, mas as coisas estavam meio mornas. Minha namorada
queria ser professora, e eu estudava para tentar ser Jornalista. Recebi o
convite do casamento, e pasmem meus caros leitores, um convite para o Chá de
bebê! Eduardo havia escrito grosseiramente no cartão que gostaria que eu fosse
padrinho de seu casamento.
A impressão que eu tinha era de que o tempo estava contra mim. Casamento, vestibular, meu novo emprego, minha namorada. Conciliar tudo isso parecia loucura. Trabalhar na gráfica era bem maneiro. Eu imprimia jornais da igreja, e era responsável também pelos panfletos feitos para lojas e cartões de visitas para advogados, médicos e dentistas. O casamento era 4 dias antes do vestibular, e eu tirei uma semana de férias dos estudos. Fui a casa do Eduardo, mas ele não estava, devia estar ocupado com os afazeres do casamento. Curti o resto dos dias com minha namorada, indo ao cinema e tendo discussões acaloradas acerca do então presidente substituto Itamar Franco. Fui o padrinho do casamento, e o Dudu parecia realmente feliz, radiante. O vestibular foi bem tranquilo, passei em décimo nono, e em breve estaria estudando jornalismo. Fui visitar o filho do Eduardo quando ele nasceu, levei um carrinho pra ele. Eu poderia ver o menino Eduardo na minha frente. Gustavo era o nome do bebê. Eu não quis pegar o Gustavo no colo, meus braços ainda estavam sujos com respingos de tinta da gráfica, mas o Dudu colocou ele em meus braços. Ainda éramos amigos. Mas os sonhos eram diferentes, as vidas tinham se tornado diferentes. Eu era diferente, assim como o Eduardo agora era diferente. Neste dia eu fui embora sem saber quando voltava.
10 anos se passaram, mudamos de século, de pensamentos, de namoradas, e agora eu me encontrava sozinho, formado no meu tão querido jornalismo. Havia mudado de bairro. O centro de BH me era muito mais chamativo, e financiei um apartamento assim que pude. Minha mãe havia partido, um infarto. Papai não queria ir morar comigo, ainda era muito apegado a casa. Eu o visitava todo fim de semana. Vi o Gustavo em um destes dias de visita. Tirando os cabelos, que eram puxados os da mãe, mais castanhos, ele era a cara do Eduardo quando tinha lá seus 11 anos. Perguntei se ele saberia quem eu era.
Eu andava meio triste, estressado e ocupado, por causa do trabalho. Ficar por conta do caderno de política do Estado de Minas não era uma tarefa fácil. Todos esses anos almejando uma coisa que me mataria por dentro. A última visita que fiz ao meu pai foi bem rápida. Passei só pra deixar umas compras e cigarros pra ele. Era dia de jogo, e eu não gostava de assistir. Mas mesmo assim, depois que saí de lá, fui pro boteco mais próximo. O Jorge, dono do bar me reconheceu, me deu um oi e perguntou se descia um shop. Lembro do Eduardo virando a cabeça de uma mesa, até bater seu olho no meu. Atlético e Cruzeiro na TV do bar, murmúrios e comentários sobre formação de time.
O Eduardo se dirigiu até a mesa onde eu tinha me sentado, e sentou-se, me encarando nos olhos. Se levantou , me puxou pelos ombros e me deu um abraço! Um forte, daqueles que não se recebe a mais de 10 anos. Ali estava o Eduardo, meu melhor amigo desde os 11, o tempo tinha sido gentil com ele, mas a cerveja não, e ele começava a ostentar o peso dos 30 anos. Me perguntou por onde eu andava, e disse que via meu nome, sempre no topo do caderno político. Pediu duas cervejas e se sentou comigo, contou-me da sua vida, e do Gustavo, que fazia escolinha de futebol e logo estaria jogando no Atlético. Eu sorri, sorri a noite inteira, mas só por fora. Ali naquela mesa do boteco, contrastavam coisas muito iguais mais muito diferentes. A mente alienada feliz, mas de coração aberto, e a mente aberta triste do coração agora gelado. O resto é nostalgia pura e simples.
A impressão que eu tinha era de que o tempo estava contra mim. Casamento, vestibular, meu novo emprego, minha namorada. Conciliar tudo isso parecia loucura. Trabalhar na gráfica era bem maneiro. Eu imprimia jornais da igreja, e era responsável também pelos panfletos feitos para lojas e cartões de visitas para advogados, médicos e dentistas. O casamento era 4 dias antes do vestibular, e eu tirei uma semana de férias dos estudos. Fui a casa do Eduardo, mas ele não estava, devia estar ocupado com os afazeres do casamento. Curti o resto dos dias com minha namorada, indo ao cinema e tendo discussões acaloradas acerca do então presidente substituto Itamar Franco. Fui o padrinho do casamento, e o Dudu parecia realmente feliz, radiante. O vestibular foi bem tranquilo, passei em décimo nono, e em breve estaria estudando jornalismo. Fui visitar o filho do Eduardo quando ele nasceu, levei um carrinho pra ele. Eu poderia ver o menino Eduardo na minha frente. Gustavo era o nome do bebê. Eu não quis pegar o Gustavo no colo, meus braços ainda estavam sujos com respingos de tinta da gráfica, mas o Dudu colocou ele em meus braços. Ainda éramos amigos. Mas os sonhos eram diferentes, as vidas tinham se tornado diferentes. Eu era diferente, assim como o Eduardo agora era diferente. Neste dia eu fui embora sem saber quando voltava.
10 anos se passaram, mudamos de século, de pensamentos, de namoradas, e agora eu me encontrava sozinho, formado no meu tão querido jornalismo. Havia mudado de bairro. O centro de BH me era muito mais chamativo, e financiei um apartamento assim que pude. Minha mãe havia partido, um infarto. Papai não queria ir morar comigo, ainda era muito apegado a casa. Eu o visitava todo fim de semana. Vi o Gustavo em um destes dias de visita. Tirando os cabelos, que eram puxados os da mãe, mais castanhos, ele era a cara do Eduardo quando tinha lá seus 11 anos. Perguntei se ele saberia quem eu era.
Eu andava meio triste, estressado e ocupado, por causa do trabalho. Ficar por conta do caderno de política do Estado de Minas não era uma tarefa fácil. Todos esses anos almejando uma coisa que me mataria por dentro. A última visita que fiz ao meu pai foi bem rápida. Passei só pra deixar umas compras e cigarros pra ele. Era dia de jogo, e eu não gostava de assistir. Mas mesmo assim, depois que saí de lá, fui pro boteco mais próximo. O Jorge, dono do bar me reconheceu, me deu um oi e perguntou se descia um shop. Lembro do Eduardo virando a cabeça de uma mesa, até bater seu olho no meu. Atlético e Cruzeiro na TV do bar, murmúrios e comentários sobre formação de time.
O Eduardo se dirigiu até a mesa onde eu tinha me sentado, e sentou-se, me encarando nos olhos. Se levantou , me puxou pelos ombros e me deu um abraço! Um forte, daqueles que não se recebe a mais de 10 anos. Ali estava o Eduardo, meu melhor amigo desde os 11, o tempo tinha sido gentil com ele, mas a cerveja não, e ele começava a ostentar o peso dos 30 anos. Me perguntou por onde eu andava, e disse que via meu nome, sempre no topo do caderno político. Pediu duas cervejas e se sentou comigo, contou-me da sua vida, e do Gustavo, que fazia escolinha de futebol e logo estaria jogando no Atlético. Eu sorri, sorri a noite inteira, mas só por fora. Ali naquela mesa do boteco, contrastavam coisas muito iguais mais muito diferentes. A mente alienada feliz, mas de coração aberto, e a mente aberta triste do coração agora gelado. O resto é nostalgia pura e simples.
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