sexta-feira, 19 de abril de 2013

Para Júlia, com carinho.

    O cigarro opiáceo queima em meus lábios e dedos, enquanto lhe escrevo esta carta. A fumaça azulada enche o quarto dando aquele efeito do qual você tanto gostava quando costumávamos ser jovens. Não me recordo mais de como é seu rosto, afinal, não nos vemos a mais de dez anos! Mas gosto de imaginar sua expressão de incredulidade ao abrir esta carta, é bem divertido.
    Espero que a França esteja lhe fazendo bem, e escrevo para lembrar-lhe que nem um postal recebi, em dez anos. Quanta consideração! Imagino que o amor de um nobre francês tenha amolecido seu coração, estou certo? Espero que sim.
    Agora começa a parte que não é agradável desta carta, se você ainda mantém alguma consideração comigo, e o motivo real a qual eu lhe escrevo. Estou só, e morrendo em meu casarão. A doença me assola, e os médicos que me visitaram, não chegaram a um diagnóstico conciso. Irene me abandonou duas semanas depois de eu comunicar-lhe o que se passava comigo. Isto deixou meu coração em pedaços.
    As minhas mãos tremem enquanto escrevo ou seguro um cigarro, braços e pernas ficam mais fracos a cada momento, escrevo da minha cadeira de rodas neste momento. Contratei um criado, para cuidar de mim, agora que a casa está vazia. Ele vive aqui comigo agora, no fim.
    A diversão que me resta, é o ópio ( que compartilho com o criado, vez ou outra) e alguns passeios "diferentes" nos quais o criado me guia. Tem sido tragicamente divertido. Hugo ainda me visita com certa frequência sempre acompanhado de uma nova donzela. Ele ficou desolado quando soube da doença, mas não me abandonou. Estamos todos impotentes. Ele também pediu-me para lhe enviar os comprimentos, e gostaria de te ver te novo. Se não for pedir muito e esta carta chegar a tempo, arraste este traseiro da Cidade da Luz e venha me ver antes que, bem, você sabe.


                                                         Com amor, Lucas.
                                                                                     Dezenove de Janeiro de 1907

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