Devo ressaltar que o que eu escreverei daqui pra frente não é uma mentira e aconteceu a uns 8 ou 9 anos atrás. É difícil escrever acerca disto, afinal, demorou quase dez anos para eu tomar algum tipo de coragem pra tanto.
Conhecia meu melhor amigo desde os tempos imemoriais da infância. Não tinha um momento exato, inicial, só existíamos como amigos. Eram poucos os dias nos quais não nos víamos, eramos como unha e carne. Como eu não tinha irmão algum, Gabriel atuava como um, tinha até uma cama pra ele no meu quarto.
Crescemos juntos, passando por todas as primeiras experiências, tantas que não consigo contar ou lembrar. Talvez eu não queira lembrar, porque dói. Pensei que passaríamos pela ultima etapa da vida juntos também, mas me enganei.
Nós também brigávamos, eu e Gabriel como dois jovens saudáveis, brigamos até pela mesma garota quando tínhamos dezesseis, mas ela acabou não querendo nenhum de nós dois e depois, riamos juntos da tal garota e de seu novo namorado feio.
A primeira briga, o primeiro porre em uma festinha de um dos colegas da sala, o primeiro cigarro que dividimos escondidos do meu pai, o primeiro show juntos. Lembra disto tudo dói e me pego chorando enquanto escrevo, mas só percebo quando a primeira lágrima toca o papel e mancha as palavras escritas à caneta.
Eu nunca contei isso a ninguém, embora todos me perguntassem depois que aconteceu, aguentei sozinho o final da adolescência, e acho que envelheci dez anos nesse período. Agora que começo a escrever, tudo parece um filme, tamanha vivacidade das lembranças.
Eu ainda lembro-me do dia, das cores, do cheiro, de como o sol iluminava meu quarto nas primeiras horas da manhã. Lembro de tudo. Gabriel tinha ficado de vir lá em casa, para terminarmos o último trabalho de história do ano. Ele não costumava se atrasar demais, e depois dos estudos, sempre jogávamos video game ou vagávamos pelas ruas no fim da tarde.
Mas aquele dia, ele tinha se atrasado por horas, e o trabalho era bem extenso. Eu costumava achar que ele era o Sr. Otimismo. Fui terminando o trabalho sozinho, imaginando a desculpa que ele ia usar no dia seguinte, se ele fosse a escola.
Mas isso não aconteceu. A dona Sônia, mãe do Gabriel, que era bem amável comigo e ligava pra saber das nossas peripécias e passeios, me ligou. O que ela disse eu não esperei ouvir nunca. Ela parecia chorar. Muito.
Gabriel fora encontrado pela empregada, com os braços multilados até a altura dos cotovelos, embaixo do chuveiro ligado. A minha visão escureceu e passei a não sentir o chão. Tudo ficou parecido com uma névoa e não me lembro direito o que aconteceu depois do telefonema. Choque. Depois do telefonema, a próxima lembrança que tenho é a do dia do sepultamento.
Uma camisa social branca, calça e paletó pretos, e uma gravata preta discreta. Não sabia quem me banhou ou vestiu, não importava. A visão dele, no caixão, envolto em lírios brancos é algo que me atormenta até o atual momento. Eu sempre tinha pesadelos com os lírios sujos de sangue, do sangue do Gabriel. Era terrivelmente belo, e a expressão detida em seu rosto, era a que ele costumava usar quando estava satisfeito, terno.
Nunca me desfiz das coisas do Gabriel que ficaram lá em casa. Dormi por incontáveis semanas na cama que era dele. Aceitei que ele tinha ido. Chorei, chorei muito, e creio ter ficado duas semanas sem falar alguma palavra.
Eu nunca soube o porque. Talvez o Gabriel achou melhor que ninguém soubesse. Até hoje me pergunto os motivos. Éramos tão amigos! E ele não deixou nem um adeus sequer, de nenhuma maneira. Nada. Agora que chego ao fim, percebo o quanto ai ainda sinto falta do Gabriel. Ainda me pergunto se o que foi embora aquele dia foi meu amigo Gabriel ou uma parte de mim. Talvez um pouco dos dois.

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