O sol sobe, branco, atrás das nuvens. É a única testemunha dos acontecimentos aqui descritos neste primeiro ato. O que ele testemunha é tão pequeno e simplórios, que em uma cadeia normal de acontecimentos, ele nem existe. As nuvens bloqueiam os raios solares quase que totalmente, de tal modo que, daqui da terra, o que se vê é apenas um círculo de luz branca. Estável. Tudo estava estável naquele momento.
O cigarro aceso, já no final, não acerta a poça d'água na qual o rapaz provavelmente mira. Este é o ato infinitesimalmente pequeno que o sol observa, ao longe. O erro deixa o rapaz irrequieto, desconcertado. Ele pensa em seguir até o toco ainda aceso, e apaga-lo na poça, mas não o faz. O suor frio toma conta das mãos e a respiração se torna ofegante. O isqueiro que rola entre os dedos impacientes de uma mão magra é aceso, e os olhos observam a chama com um certo fascínio.
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O sol gira o mundo, vezes observando aqueles pequenos seres e astro menores, em suas sucessões incansáveis de pequenos atos repetidos. A linha de pensamento solar era tênue. Ora era como fogo queimando madeira verde, demorado, lento, pensativo, ora era como o hidrogênio, queimando tudo rápido e simultaneamente. O sol enxergava tudo que sua luz iluminava, ao mesmo tempo. A perspectiva pode parecer enlouquecedora para você, mas não para o sol.
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As unhas são cortadas rentes, e lixadas. Os cabelos usam o corte mais curto, o que evitava os inevitáveis puxões. O jovem não era de tomar remédios, e por isso, o fogo e o cigarro sempre ajudavam a manter o controle.
O erro, a ideia do erro, era o que lhe tirava qualquer resquício de concentração sistematizada do rapaz. Pânico e ansiedade eram palavras chave. Vez ou outra, ele conseguia abrandar os sentimentos. A ansiedade era diferente. Era incomum por vir depois do que deveria. Era posterior ao ato do erro. O pânico vinha junto, de brinde. Ansiedade, logo após, pânico. Até nisso era sistemático, pois ascendia o cigarro tremendo e olhava pro fogo do isqueiro, até o mundo estabilizar-se. Fogo era destruição, fogo era calma. As vezes, para haver calma, a destruição se torna imprescindível.
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Entre o sol e as crises de pós-ansiedade seguidas de pânico, existe um mundo. Mundo esse que não se importa com seus viventes. Que talvez, não tenha se dado conta deles. O rapaz não percebe o mundo, assim como o mundo não o percebe. Reciprocidade. Apenas o sol possui uma vaga percepção dos dois. O mundo, tanto para o rapaz quanto para o sol, era um cenário, do qual não se vale a pena falar. Ele só existia, ali, servindo de cenário para o verdadeiro astro. Mas o mundo pouco importava-se.
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Voltamos ao momento inicial, crucial. O ato do fim. Os dedos em riste, impulsionando o toco do cigarro. A fumaça que se desprende em pequenas espirais brancas. Os círculos perfeitos que o cigarro desenha no ar, e o momento onde a brasa, ainda queimando, se desfaz no chão, explodindo em milhares de pequenas partículas de um alaranjado brilhante. A explosão de um micro-universo. Ninguém percebe a magnitude do ato, pois afinal, ele dura menos de um segundo. Mas ele, o cigarro, não acerta a pequena e insolente poça de água. O Erro.
O sol está em um momento onde o pensamento corre lento, o céu está nublado, e ele não pode observar como deveria. Há no céu apenas nuvens e o círculo branco e etéreo, um fantasma do sol. O mundo também não se da conta do pequeno pedaço de espuma que logo iria, junto com outras impurezas, para as suas entranhas. Toda reação possível recai sobre o jovem homem.
A respiração se torna ofegante, e o suor brota frio, como estrelas novas em um céu na noite limpa. O rapaz quer pegar o toco, e apaga-lo na água suja da pequena poça. Mas o pensamento lhe diz que aquilo seria errado. O Erro. Um erro para sanar outro. A extensão deste pensamento toma uma proporção indescritível, pois o cérebro, já confuso, confronta-se contra si.
O sol agora brilha parco, quase amarelado. Ele enxerga o garoto, agora sentado no chão, perto da poça, se esforçando para conter os espasmos. Para o Sol, parece que tudo que o rapaz gostaria, era de se abraçar, e esperar o tempo.
O brilho quase amarelo do sol lembra ao rapaz que ele possui um isqueiro, e por consequência, dos cigarros em algum bolso da jaqueta. O pensamento da chama e de uma nova brasa afasta um pouco os sentimentos sufocantes que o envolviam e abraçavam, mas só isso não basta, assim como fumar um só cigarro já não bastava.
Com a dificuldade, ele retira o isqueiro de um bolso qualquer. Ele sabe que há movimento na rua, coisas ao redor, mas agora ele é o próprio mundo, que não sente, não escuta, e não se importa. A chama acesa atrai o olhar quase que magneticamente, olhar esse que demonstram um fascínio que aqui só posso descrever, como o olhar daqueles que reencontram o amor.
Aos poucos, a respiração estabiliza-se e o suor já não escorre mais. O rapaz é o mundo, a chama é o Sol. Ao mesmo tempo, uma relação próxima, vital. Mas não para os dois lados, nunca para os dois lados. E é uma relação distante, tão distante quanto qualquer distância que pode ser percorrida, pois não é física. O isqueiro não toma, em momento algum, conhecimento da mão que o segura, mas necessita dela para servir ao seu propósito. Assim, o rapaz-mundo necessita do isqueiro-sol. e sabe disso, assim como todos os viventes deste mundo (mesmo que inconscientemente). O sol sabe de quase tudo, mas iluminar um pouco mais o universo, é o que ele faz. E ele serve bem o seu propósito.
Se o Sol se apaga para a terra, a escuridão o pânico e o caos reinam soberbos. O sol é para muitos, eterno. A chama do isqueiro não. A escuridão, o pânico e o caos, também se fazem válidos para metáforas bobas acerca de isqueiros e rapazes.
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