terça-feira, 1 de abril de 2014

O Louco

    A primeira coisa que fazia ao acordar foi tirar um Marlboro vermelho do maço e acender. Apaziguava o cansaço mental, a dor, o medo, a indecisão. Vivia como a representação fiel da carta sem número do Tarot de Marselha, o Louco, porém, sempre mal aspectado por todos os arcanos menores.
    Assim como a carta, vivia como a libertação dos padrões da normalidade, dono de uma liberdade sem limites e insustentável, desestruturada. Era fuga do mundo para muitos dos que o rodeavam. Vivia na linha tênue da loucura, do fim.
    Já faz um tempo que venho observando este jovem, que encerra tantas vidas em uma só, e preservarei-lhe o nome enquanto discorro estas palavras acerca dele.
    Ele vivia como desejava. Sabia que a morte, mesmo amiga, andava sempre próxima, disposta a acender mais um cigarro. Era um dândi moderno, aos moldes de Oscar Wilde. Das vezes em que ouvi, sempre diziam que aquele ali sim, sabia viver, mesmo que dos excessos. Os cigarros incontáveis queimavam-lhe a boca, mas ele não se importava, sequer sentia. O ácido lisérgico que vivia dividindo com o namorado e a namorada já se encarregara de queimar-lhe a boca ao máximo possível.
    Os dois namorados eram um caso a parte, tão bonitos quando poderiam ser. Dividiam de tudo: do pequeno papel quadrado que passava de boca em boca com beijos mais sensuais e obscenos, ao leito em que dormiam todas as noites. E ele corria atrás daquela emoção, mas sem emoção alguma para dividir. Os dois eram os Enamorados, e ele continuava sendo O Louco.
    E como O Louco, ele buscava a fuga da realidade. Toda manhã sonhava com o amor puro, suave, leve. O amor utópico, criado apenas dentro de um mundo possível com regras impostas pelo seu criador, tudo dentro de um contexto, e a noite, deitava-se com seus dois, rezando à morte para que aquela lhe toldasse dos sonhos.
    Mas como o único castigo, ele continuava a sonhar. Vivia a vida na ilusão. Tinha longas conversas com a Morte, sozinho, e nunca deixava que ela lhe acendesse o cigarro. Pois o cigarro que a Morte, agora amiga, lhe acendesse seria o último.
    E mesmo sendo muitos, com a vida cheia, mais cheia que a de alguns, ele ainda sentia-se vazio, como uma casca furada, que nunca poderia ser preenchida, por mais que se tentasse. A fumaça lhe vazava dos pulmões, os beijos nunca tiveram gosto e o sexo tampouco. Mesmo com a vida que muitos adorariam ter, o vazio que permeava cada célula viva ou morta em seu corpo sempre era superiormente notável. E como o Louco, sinto-me livre para caracterizá-lo como o desvio, o inconsciente, andando em direção a um sonho, que provavelmente, não vai se realizar.
    A última vez em que o vi, ele estava em uma passarela bem alta, fumando um cigarro de filtro vermelho. Posso jurar que a morte estava ali, meio que ombro a ombro e com um ciagarro na mão. O último para cada um dos dois. Vi também quando ele escorregou e caiu lá de cima.  Ficou em uma posição estranha ao bater no chão, quebrado em ângulos estranhos . Agora o sangue lhe vazava por onde antes a fumaça fazia as honras. A morte já havia ido, e eu poderia jurar que o vi, em um último momento, um pouco dele mesmo esmaecer com a fumaça daquele último cigarro que ele ainda segurava nas mãos. 

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