quinta-feira, 27 de março de 2014

Sobre Lugar-Nenhum

    Lembra-se dos incontáveis dias que sempre prometíamos um para o outro de ter? Todas as conversas que sempre começavam com "poderíamos" e "um dia"? Oh, é claro que lembra. Assim como deve se lembrar daqueles estranhos dias que passamos juntos e o mais próximo da tecnologia que chegávamos era quando acendíamos uma lamparina a óleo e usávamos o pequeno fogão a gás para cozinhar. Eu nunca me esqueço deles.

                                                                         ***

    As vezes duas pessoas querem fugir de tudo, exceto uma da outra, e para nós, aquele momento havia chegado. A fuga da sociedade, da tecnologia, tão impregnada nos nossos dias e nas nossas conversas. A fuga do conceito imposto e deturpado do que é e de como deve ser um relacionamento. Uma fuga de nós mesmos, e também a chance de nos libertarmos, de poder dizer olho no olho tudo que nunca dizíamos pela internet. Todas as conversas deixadas pra lá. Escrevi cartas, tentando burlar todo esse tudo, embora nunca tenha recebido as devidas respostas.
    E com esses conceitos e vontades, nós nos retiramos do mundo comum para viver um tempo que foi só nosso, em um lugar que neste humilde relato, chamarei de Lugar-Nenhum.
    E Lugar-Nenhum era lindo, bucólico. Um casebre simples, com o chão de terra batida e janelas bem pequenininhas, feitas de madeira. Eram 2 cômodos, uma cozinha simples com um fogão a lenha num canto e uma mesa para 4 pessoas e um quarto pequeno, com uma cama de casal e dois criados mudos , e em cima de cada criado, um catre com água que sempre parecia estar fresca. Não havia torneiras, e o banheiro era do lado de fora da casa. Também não havia luz elétrica, apenas velas e um lampião à óleo que trouxemos no carro. Basicamente, éramos nós no meio de lugar nenhum.
    No carro, suprimentos para uma quinzena, um botijão com gás, um fogão pequeno de duas bocas e um telefone celular para o caso de alguma emergência. Uma pequena observação: Não precisamos do telefone celular. É claro, levei os meus cigarros , e você, seus calmantes. Infelizmente, de algumas mordomias do mundo moderno não se pode abdicar.
    Lugar-Nenhum era simplesmente belo. Pastos que verdejavam vivos todas as manhãs assim que os raios de sol começavam a lamber a grama, que terminava em um campo de flores para se perder de vista. Flores selvagens, naturais dali mesmo, brancas, amarelas, vermelhas e alaranjadas, que soltavam a fragrância em todo final de tarde.
    É claro, eu não poderia me esquecer do lago. Era enorme, esverdeado, de uma certa parte, quase da metade, havia uma cerca, que formava uma parede de árvores, uma cerca viva. Era tão lindo que gostávamos de fechar os olhos e escutar a vida encontrando o seu meio.
    E Lugar-Nenhum era isso. Pode parecer simples, mas acredite, era quase mágico. Discutíamos aquele filme idiota de kung-fu enquanto o tempo corria lento e assistíamos toda manhã o sol ir à pino, para então fazermos uma refeição que era a mais deliciosa do mundo apenas pelo fato de estarmos lado a lado.
    Quando estávamos juntos, seja naquele campo florido ou com os pés descalços roçando a água na beira do lago, era como se estivéssemos presos em uma bolha-de-tempo-lento. Falávamos do amor e da essência pessoal de cada um. Falávamos... Não, exaltávamos as nossas diferenças ao passo que íamos deixando todas as similaridades de lado.
    Sentados no campo, nossa conversa durava uma vida. Eu fazia coroas de flores enquanto você divagava acerca de nossa condição terrivelmente humana e depois perguntava com certo desdém se era eu mesmo quem usaria "aquilo". E eu usava, afinal, aquilo me divertia. Sentados no campo, observávamos o sol indo, você cantarolava Reflektor, enquanto a brisa espalhava pelos campos o aroma das flores.
    Sinto que poderia passar o resto da minha vida ali, em Lugar-Nenhum e ao seu lado. A nossa conversa continuaria infindavelmente, sem a interrupção alheia. Poderíamos continuar caminhando toda noite em volta do lago, observando uma quantidade infinita de vaga-lumes criar um universo só nosso refletido no lago. Um festival de verde e negro, tão lindo quanto macabro.
    Mas hora ou outra o sonho de libertar-se dos grilhões impostos a nós pelo fator social terminaria, e foi assim que aconteceu. Partida, separação, cada um para o seu lado e em caminhos distintos. Uma carta enfim foi respondida, mas só para marcar o próximo encontro, que ocorreria cerca de um ano depois, em um pequeno hotel de beira de estrada. Tínhamos menos de 24 horas daquela vez.
    Conversamos, obviamente, sedentos pelo turbilhão de novidades que podem ocorrer no espaço de um ano. Assistimos seu filme favorito de kung-fu e depois uma espécie de romance sobre frangos e ameixas. A separação veio mais cedo desta vez. Partimos.
    Minhas lembranças estão anuviadas, escuras, creio que sequer existam, não passem de bobas idealizações, nunca estivemos em lugar nenhum, embora eu tenha certeza de que posso me lembrar da felicidade que senti, do cheiro das flores no fim da tarde, do toque da água fria no meu corpo e de você cantarolando aquela música, algo sempre me traz à realidade. Minhas cartas continuam sem respostas, mas sempre me surpreendo ao ver uma mensagem sua piscar na tela do meu telefone celular, marcando algo para a próxima sexta, talvez...

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