Cocaína e Adderall, Maconha e analgésicos, Heróina e Anti Depressivos. Ácido Lisérgico. Mescalina. Equivalentes. Para mim, o consumo das drogas estava no centro do que era ser um consumidor moderno. Você consome música, cultura, marcas e consequentemente, drogas.
Bem, a minha psicóloga pensava o contrário, e meus pais também, afinal, foram eles que me mandaram até ela. Da parte de todos que viviam ao meu redor havia uma preocupação com os excessos. Normal. Da minha parte, nenhuma, o que me deixava na corda bamba da overdose, mas eu não me importava.
O meu primeiro ato no escrítório no qual eu seria atendido foi acender um Marlboro vermelho, começando a consulta com uma leveza que para mim, era singular.
- Apague isto por favor, nós iremos começar
Virei-me para ver a dona da voz. Era pouco mais alta que eu, com feições duras para uma mulher, mas ainda sim, finas e belas. Ela não sorria ou demonstrava qualquer sinal de que o fária. Era uma voz séria.
- Não vejo nenhum aviso me proibindo - Eu disse.
- Pois use o bom senso. A consulta já está paga e nada te impede de dar o fora.
Apaguei o cigarro na mão, como costumava fazer quando não haviam cinzeiros por perto e a vi levantar uma sobrancelha. Sorri enquanto procurava um cesto de lixo pelo escritório, que era médio. Haviam dois sofás, um de frente para o outro, com uma pequena mesa de centro entre um e outro. Uma estante de livros separava duas partes do escritório. Do outro lado da estante eu poderia ver uma mesa. Em cima dela, uma caixa de algum remédio tarja preta. Seria pra mim? Ou de um outro cliente? Eu poderia ver também um arquivo, e provavelmente um banheiro. As janelas eram enormes, saiam do chão e iam até o teto, dando uma visão do mundo lá fora. A vista era ótima, mas sufocante. Quase não dava para ver o céu devido a infinidade de prédios que havia em volta.
Encontrei o cesto de lixo próximo a estante com os livros e atirei a guimba do cigarro dali mesmo. Bingo. Embora creio que ela não pudesse demonstrar , eu podia sentir a desaprovação no ar.
- Podemos começar agora? - Impaciência. Irritabilidade.
- Eu não disse que não poderíamos antes - Eu quis rir. Porque me submeti a este cúmulo do ridículo?
- Pois bem, o que o traz aqui senhor...- Uma olhadela rápida na minha ficha prévia - ... Basílio?
- Meus pais, meus amigos, e porque não, eu mesmo? Acredite, eu não estaria aqui se não quisesse. Isso é ridículo.
- Interessante. - risc risc risc risc eu ouvia. Anotações, provavelmente para mostrar aos queridos papai e mamãe. - E porque o senhor está aqui?
Pensei um pouco nessa enquanto observava a tal psicóloga. Estava de frente pra ela e encarava seus olhos negros, quase hostis, tristes. Deveria ser só uns dez ou doze anos mais velha que eu, o que era uma surpresa. Nenhuma aliança no dedo. Deveria ser um daqueles singles, que só pensam em carreira e esquecem do viver, de um modo geral.
- Pode relaxar caso esteja tenso senhor Basílio.
Mostrei a palma da mão e a marca do cigarro recém apagado, impressa ali.
- Acredite, não estou. E sobre relaxar, creio que relaxei meio cigarro. - eu disse - Agora, o motivo para eu estar aqui? Não é exatamente um porque, e obviamente meus pais disseram quando contrataram seus "servíços."
- Então o senho concorda com eles ? O senhor considera que tem um problema com drogas?
- E quem não tem? O que é lícito ou ilícito importa mesmo, tendo em vista a dependência que é gerada? Vejo alguns amigos com vinte e poucos anos se entupindo de anti-depressivos e remédios para dormir.
- Eu gostaria que você não me interrompesse, senhor Basílio.
- Meus pais lhe pagaram por quanto tempo?
- Uma hora exata. O senhor ainda tem quarenta e um minutos.
- Pois faça bom uso deles - Disse isso me levantando e indo em direção a porta.
- Seus pais não gostarão disso, e o senhor sabe.
- Mas eu não me importo, e você não deveria. Parece que não sou só eu aqui com um problema com drogas. Pra tratar de viciado pra viciado eu trato onde compro. É Valium? Lítio? Poderia me dar um?
Sai pelo corredor sem me dar o trabalho de fechar a porta. A placa dourada na porta dizia " Drª Miller , 719". Já estava quase no final daquele corredor cheio de portas fechadas , quando ouvi uma porta bater com força. Ia descer de elevador. Mas parei, sorri, acendi outro cigarro e desci de escadas, afinal, não é todo dia que se tem quarenta e poucos minutos livres de reclamações alheias e pessoas que te mandam apagar o cigarro.
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