domingo, 15 de junho de 2014

Tio Jhonny

    Enquanto todos se abstinham e se contentavam em discutir os problemas da família, o tio Jhonny cheirava cocaína. Ele estava realmente convencido de que aquilo ajudava a suprimir a dor. Obviamente, ao fim de mais uma carreira do tio Jhon, eu começo a minha. 
    Papai e mamãe deveriam estar discutindo o episódio recente com a Drª Miller, ele com uma taça de conhaque e ela com um cigarro recém aceso. A voz do tio Jhon me traz de volta a realidade, puxando-me de um devaneio de um microsegundo. 

    - Tu vai querer Basil? - Basil. Era assim que ele costumava me chamar. Só ele uma prima minha me chamavam assim. 

    - Vou não tio, valeu. Agora vou lá pra fora antes que sintam a falta do mais novo assunto da família. 

    - Tem erva na ultima gaveta da cômoda do meu antigo quarto, mas sua vó não sabe. Pega o que precisar lá.

    Do banheiro até o quarto do tio Jhonny era um pulo, de modo que todos que estavam na sala não me viram. Vi papai e mamãe, exatamente como eu tinha imaginado. Sentados próximos, ela com o cigarro repousado no cinzeiro e ele com o copo de conhaque quase vazio na mão, remexendo o conhaque lá dentro. Todos estavam modorrentos, conversando coisas desinteressantes. E lá no quarto, na última gaveta da cômoda, um pacote de erva não tão modesto quanto eu imaginei me esperava. Puxei a gaveta até poder ver o chão, e como eu também suspeitei, o tio Jhon tinha muita cocaína. Uma quantia absurdamente grande para uma pessoa só. 
    Obviamente, eu não poderia culpá-lo. O recente término do casamento, a perda da guarda do filho... Pelo menos o emprego e o dinheiro para manter um certo estilo de vida ele ainda tinha. Peguei a minha erva, e obviamente, um pouco de cocaína. Agora meu objetivo era passar pela sala. 
    A conversa modorrenta de um domingo a tarde cada vez ficava mais arrastada. Agora meus outros tios, juntos com meu pai, discutiam sobre alguma coisa que não prestei atenção. Ninguém prestou atenção em minha rápida passagem. 
    No quintal me sentei no muro baixo e fiquei observando a rua. A cocaína em si ainda fazia efeito, mas a cada vez que eu cheirava, um pouco da graça ia embora. Encontrei conforto para a inquietação que começava a se apoderar de mim com um cigarro. E depois outro. E um terceiro após o segundo. Cocaína dá uma puta vontade de fumar. 
    A tarde estendia-se a minha frente infinitamente, de modo que comecei a enrolar um cigarro com a erva que tio Jhon me dera para relaxar. 

    - Pega o carro da sua mãe, estamos indo dar uma volta. - A voz inconfundível de minha prima Amélia. Ela deve ter chegado logo depois que entrei pro banheiro com o tio Jhon. Sorri pra dentro de mim mesmo. 

    Amélia se sentou ao meu lado no muro. O cabelo estava azul. Tão azul que se misturava com o céu. O batom vermelho e as feições finas deram o tom quando ela acendeu um cigarro. 

    - Tem erva Basil? 

    Mostrei o cigarro quase terminado para ela.  

    - E tu tem mais? 

    - Tenho sim, o tio Jhonny sempre me dá. Onde nós vamos? 

    - Não preocupa com isso não, pega as chaves que estamos indo. 

    Essas reuniões costumavam perdurar até a noite, e não eram nem duas da tarde. Amélia e eu tínhamos uma janela de tempo bem grande para fazer o que quer que ela sugerisse. Levantei-me para buscar a chave do carro, os efeitos da cocaína acenavam levemente um adeus. Mamãe só me emprestou o carro com a promessa de que eu traria cigarros pra ela, pois os dela estavam no fim. Dei metade do meu maço a ela e um beijo no rosto e ela limpou levemente o meu nariz. 
    Não vi o tio Jhonny antes de sair, e o banheiro ainda estava trancado. Decidi deixá-lo ali, sonhando seus sonhos brancos enquanto eu saia pra quem sabe, sonhar os meus. Eu me arrependeria horas depois de não ter feito isso. 
    Cheguei sorrindo para Amélia, balançando as chaves a altura dos olhos. Ela também sorriu e nós partimos. 

                                                                        ***

    Amélia, a minha prima e o tio Jhonny eram as pessoas de mim de toda a família. Costumavam saber de tudo da minha boca. Literalmente, eram os que sabiam a versão verdadeira dos fatos, contada por mim, e não truncada pela boca dos outros. Tio Jhonn era o meu guru. Me ensinou tudo que eu sabia acerca de muitas coisas. Não listarei aqui por motivos de segurança. Ele também me dava tudo que eu não podia conseguir por meios normais. Era meu amigo e meu traficante. 
    Já Amélia era a minha companheira nas aleatoriedades da vida. Aleatoriedades estas que nós mesmos criávamos. Como daquela vez que fizemos um pic nic na beirada de uma rodovia. Todos nos olhavam. O cabelo azul que ao sol, lembrava um fogareiro, a bebida alcólica em plena segunda feira a tarde.  

    - Para onde iremos hoje? - A pergunta foi seguida de um cigarro aceso. 

    - Eu descobri um lugar ótimo. Mas é surpresa. Acende um pra mim aí. 

    A melhor parte da mamãe fumar é que: 

1º- Ela nunca reclamava de ninguém que também o fizesse. 
2º- Poderíamos fumar maconha dentro do carro, além de fumar qualquer coisa deliberadamente, desde que não batêssemos as cinzas no chão. 

    Acendemos o primeiro baseado do dia no carro. E rimos. Não tínhamos som e a única música que sabíamos cantar inteira era " Whatever " do Oasis. Amélia indicava as direções. Foram alguns quilômetros na rodovia e uns outros em uma estrada de terra, que deu em um micro penhasco de uns dois metros de altura. Deste pequeno penhasco, tínhamos vista para um lago. Não muito grande, mas muito, muito bonito. 
    Estacionamos e nos sentamos ali, a beira do penhasco. O lago refletia o ceú azul sem nuvens, tornando a vista dali uma pequena amostra do infinito. Tudo azul, completamente blue. Já tínhamos aceso outro cigarro de maconha. 

    - É verdade sobre o psicólogo? - Me perguntou Amélia, foi como um tapa na cara. 
    - Depende. Mas porra, quem te contou? - Eu estava meio surpreso. Na verdade, desgraçadamente surpreso.

    - A mamãe. Você é o assunto da família agora, Basilzinho. O Projeto de Jhonny, ouvi meu pai dizer outro dia. - Ouvi sarcasmo, e depois, pesar.

    - É verdade sim, mas nada pra se preocupar. Eu não tive nenhum princípio de overdose ainda e nunca me falaram de uma clínica de desintoxicação.

    - E como foi lá Basílio?

    - Como o tio Jhonny disse. Visitar um psicólogo é como uma breve visita ao inferno. Não fiquei nem vinte minutos, mas fui obrigado a ir porque papai me deixou na porta.

    Um riso abafado se transformou em tosse e ela me passou o baseado, que prontamente peguei e traguei profundamente. Quando o acesso passou ela virou-se para o lago. Tirou os sapatos e ficamos ali em silêncio, apreciando aquela pequena beleza que o mundo nos proporcionava no momento. Tirei os sapatos também, o sol ainda estava agradavelmente quente... era a espécie de tarde perfeita, onde dava para passar a vida inteira sem se preocupar com muita coisa.

    - Vamos nadar Basil? Só um pouquinho, o sol ainda está alto, e nós ainda estamos altos, temos tempo.

    - Não! Não temos roupas nem toalhas nem nada !

    - Mas você já tirou o sapatos Basil, não seja um empaca fodas colossal.
 
    - Mas é que ...

    E como você já deve imaginar, Amélia me empurrou do nosso pequeno penhasco, me mandando direto pra água. Comecei a rir, estava muito chapado. Tirei minha camisa e fiquei só de jeans, ali dentro do lago. E quando me virei para olhar onde se encontrava a minha tão querida prima, a vi tomando impulso para pular no lago, só de jeans e sutiã, os cabelos azuis misturando-se com o céu. Nesse momento acho que estávamos muito chapados.
    Ficamos um bom tempo na água. Quando saímos ficamos apenas com as roupas íntimas, deixando os jeans secarem em cima do carro. Por deus, tomara que não ficasse alguma mancha na pintura. Acendi um cigarro pra olhar o por do sol e compartilhei-o com Amélia e quando ele terminou, decidimos ir embora. As roupas meio sujas de grama, meio molhadas, mas também, meio felizes. A volta pra casa não foi longa.

                                                                            ***

    A porta da casa da vovó estava tumultuada. Luzes vermelhas acendiam e apagavam em um espaço de tempo cronometrado, mas sem nenhuma sirene. " Eu te amo Basil, mas por favor, não se deixe levar como o Tio Jhonny deixou, você é meu único primo decente." Amélia me disse isso em algum momento. Estávamos andando e eu ouvia o choro da vovó bem alto, de fundo haviam alguns murmúrios. Não vi meu pai, nem minha mãe. Eu estava etéreo, de tanto medo. Eu não chamei o tio Jhon antes de sair. Eu vi uma ambulância, e a frente dela, um carro funerário. " Ah meu deus, é o tio Jhonny, Basil. " Estas palavras de Amélia foram as ultimas coisas que ouvi, e depois, tudo apagou.
 
   

    

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