terça-feira, 17 de junho de 2014

Isolado


    Tudo que era mundano de repente perdeu o significado. Eu estava aéreo, indiferente, triste, sóbrio. O tio Jhon se fora, vítima da própria vontade, vítima do sonho branco que ele tanto sonhava.  Recebi uma mensagem no celular, de um número que não conheço. A mensagem dizia: " Valium ". Eu não me preocupei em descobrir quem era, aliás, a palavra não me fazia nenhum sentido. 
    Estou me vestindo para o funeral do Tio Jhon. Mamãe disse que não iria, e meu pai foi relutante. Talvez eu não estivesse em condições de dirigir, embora estivesse bastante sóbrio. A minha ultima homenagem ao tio Jhonny porém, estava no bolso do meu paleto preto. Eu queria ter chorado, mas até isso me parecia inútil e vazio. Não me lembro de nenhum rosto no funeral. Talvez do som da minha avó chorando, ou alguns risos. Eu não saberia dizer o que era real ou não. O choque ainda não tinha passado totalmente.  ..." Não se deixe levar como o tio Jhonny " ... Coisas ecoavam na minha cabeça. Eu fumei todos os cigarros ou um só? 
    E quando por fim, abaixaram a tampa do caixão e ficamos só eu , a vovó e o papai. A vovó foi tomar um ar e o papai me pediu um cigarro com um olhar de pesaroso. Ele saiu para fumar, embora eu ache que ninguém ali se importaria.  Era a hora da minha ultima homenagem ao tio Jhonny. Havia uma trouxinha de cocaína no meu bolso, dava para umas três carreiras. Organizei-as em cima do caixão. Cheirei a primeira. E depois do BOOM, cheirei a segunda. Deixei a terceira para o tio Jhonny. Acendi um cigarro e fui encontrar o papai. Aquela foi a última vez que cheirei cocaína. 
    Encontrei Amélia na saída do cemitério. Não me lembro do que ela disse. Não queria lembrar. A morte e e sepultamento do tio Jhon me pareciam um sonho ruim do qual eu queria esquecer, mas que por mais que eu tentasse, ele jamais deixaria de me atormentar em certos momentos. 
    Sentia o medo aproximar-se a cada vez que eu pensava nos ocorridos. Disseram que fora morte por ataque cardíaco, mas todos sabiam que fora por overdose. Ainda havia cocaína na pia quando arrombaram a porta para saber o que ocorrera lá dentro. 
    Parei de cheirar, dobrei o uso dos cigarros. Sequer sentia mais o gosto da fumaça que eu tanto adorava, minha língua estava queimada. Comecei a ver o tio Jhon morto cada vez que eu ia ao banheiro. Sentia meu nariz sangrar. Emagreci.  
    Quis fumar um cigarro no meio da missa de sétimo dia do Tio Jhonny. O padre que dava o sermão parecia ter direcionado aquelas palavras de encerramento justamente para mim: 

    " E o próprio Deus estará com eles. E enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram " 

    E eu me levantei. Amélia foi atrás de mim, fumar um cigarro silenciosamente. Ultimamente eu realmente não queria falar com ninguém, nem comigo mesmo. Mas perguntei-a sobre a mensagem e o Valium, que ela desconhecia. Deus enxugaria minhas lágrimas, e não haveria mais pranto, nem dor, mas haveria morte. 
    O sentimento suicida me dominou, mas eu não disse a ninguém, duvido que poderiam ajudar de alguma forma. Papai e mamãe desta vez foram sensatos, meus sentimentos estavam latentes até em minha silhueta, minha forma de agir. Expuseram suas preocupações a mim, seus medos. Queriam que eu buscasse ajuda para aquele momento difícil. E então, como um raio, o entendimento se fez claro em sua mente. 
    Desta vez, por vontade própria, aceitei a ajuda, e me vi novamente em frente a um escritório já conhecido. Drª Muller, 719. Apguei o cigarro antes de entrar desta vez.  

    - Boa tarde, Basílio. Está pronto para começar? 


    Olhei pra mesa. A caixa ainda estava lá, e eu podia ver impresso em pequenas letras negras: " Valium ".

O entendimento se fez. E eu quase sorri. Creio que fiz uma espécie de careta, mas me sentei e fiz um aceno positivo com a cabeça. Comecei a contar do Tio Jhonny. 
     Ao fim do tratamento, substitui uma droga por outra, porque era mais bonito. O Valium ocupava o lugar da maconha, e além dele, eu tinha o Roxetin pra me deixar quase sempre feliz, e o Lítio, para me deixar estável. Era uma felicidade plástica, eu sei, mas afinal, qual felicidade não era? As vezes eu me lembro do tio Jhonny quando eu tenho meus sonhos brancos, brandos. Mas só as vezes. 

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