Das dores que assolam todos os mortais, nenhuma compara-se a que sinto agora. Chamam-me de Adam e sequer lembro de quem chamou-me assim algum dia. É o último nome do qual me lembro. Quando jovem, repito, jovem, beirando um quarto de uma centena, a única coisa a qual eu desejava, no meu mais profundo âmago, era a imortalidade ou a morte, devido ao constante desinteresse em todas as escalas da minha. O oito ou o oitenta. Uma obvia utopia, é claro Até se tornar real.
Como e quando, porém, fica para uma outra história, que creio ser deveras longa para escrevê-la por hora. Mas simples assim, a imortalidade veio a mim aos vinte e cinco, uma idade muito terna e infantil para ter o real entendimento de tal condição. Ainda não havia vivido um grande amor e não veria minha família fenecer diante o meu olhar ou sequer tinha tido as grandes preocupações, nem grandes decepções. Nada era grandioso para mim. O conhecimento que eu tinha do mundo, embora amplo, era condicionado a ser sempre limitado, dada minha condição humana.
Os que me tornaram imortal avisaram-me dos males os quais a nova condição a mim imposta poderia e iria causar. Um novo entendimento sobre a vida, o amor, a admiração, e principalmente a morte. Tudo o que é natural morre. O que não pode morrer torna-se não-natural, uma falha na malha de realidade da qual o mundo é composto, algo que beira ao compreensível, como provou Perpétua, mas chegaremos lá. Tal condição é ao mesmo tempo assustadoramente fantástica e aterradoramente assustadora. Os que não a suportam definham até sumir num imenso mar de pensamentos, mar esse que é transparente e permite que a luz os encontre ou até que algum outro imortal o ouça e acabe por fim com tamanho sofrimento.
Durante o primeiro século, vivi o equivalente a três vidas, definitivamente encantado. Amei Gabriel como nunca antes havia amado. Mantinha uma admiração profunda pelo seu ser e pelo quanto aprendi naqueles 5 anos com os quais passei ao seu lado. Costumava ir a todos os shows nos quais ele se apresentava, e ele adorava isso. Para ele, eu vivia só para ele. Para mim, eu vivia através dele. Nunca bebi de Gabriel, embora toda a volúpia dele para comigo me deixasse seriamente tentado.
Com Morgan as coisas foram completamente diferentes. Ela era simplesmente a frente do seu tempo, porém, dolorosamente jovem. Mais jovem do que eu quando a imortalidade me foi concedida. Uma criança. O cheiro que dela despendia era o cheiro da rebeldia, misturado a cigarro e vinho barato, e era um cheiro delicioso. Era um ás da sensualidade, sempre me convidando, mesmo que sem saber, a beber do seu jovem e quebradiço pescoço. Mais uma vez resisti. Ainda não era o alguém que suprisse o meu ideal.
E por fim, Perpétua. Não era jovem, porém altivamente bonita, ao meu ver. A parceira ideal para se dividir a eternidade. Compartilhava de todos os ideais dos quais eu buscava. Estava eu caindo na chaminé do amor. Passava todas as minhas noites ao seu lado, discutindo a monstruosidade que suspeitávamos viver dentro de cada um, e sobre como os dias eram seguramente vazios de interesse.
Em todos os encontros eu me despia mentalmente para ela, que, embora não fizesse exatamente o mesmo, com base na observação de cada pequeno detalhe, e pequeno movimento, eu podia ler tudo o que se passava por ela. Sorvia cada palavra, cada gesto, cada restinho de ar que lhe escapava.
Perpétua era quem eu queria ao meu lado, para todo o sempre. O que obviamente, não aconteceu. Quando revelei meu segredo mais profundo e profano, Perpétua se recusou a acreditar , em um primeiro momento. Fiz uma pequena amostra das presas, para que ela percebesse. E Perpétua surtou. Oh, só Deus sabe o quanto eu odiava fazer aquilo. De Perpétua bebi sem vontade. O medo estraga o estranho adocicado que o sangue traz a língua. Pobre Perpétua, perdeu a chance te ser tão literal quanto o nome. E eu aprendi que por mais que me identificasse com algum outro ser, pouquíssimos teriam capacidade para absorver a realidade e seriedade da situação.
E como se o sol se deitasse no fim do dia, os avisos e alertas dos imortais todos os dias se faziam visíveis. Havia uma certa resistência ao novo e uma falta de interesse no quadro geral do que a vida se tornara. Eu observava Gabriel e Morgan de longe, fazendo o que todos os outros milhares de mortais faziam. Envelhecer e morrer. E de repente, eles não eram mais tão fantásticos assim. O peso do viver se abatia sobre eles a cada visita secreta que eu fazia, olhando por suas janelas, invadindo o que era seu. Tiveram o fim normal, para pessoas normais. Apareci no velório dos dois. Um dos filhos de Gabriel me reconhecera de alguma fotografia que ele deveria ter tirado, em um daqueles antigos shows. Morgan não teve filhos. Após um rompimento importante do âmbito amoroso da sua vida, dedicou-se a amar a si mesma e a dançar, que era o que fazia de melhor. A expressão no rosto dela era de alguém feliz consigo mesma, independente do resto do mundo. De Perpétua agora eu só me lembrava do nome.
E a partir de agora, os séculos iam-se embora como meses. Um século, um mês, duas, três vidas atrás. Eu já nem contava mais. O mundo se modernizar e as pessoas se tornarem vazias eram duas grandezas inversamente proporcionais. Ao passo que o mundo caminhava a passos largos, a humanidade regredia no costume social, na produção da arte, no modo de vida. E eu nunca mais amei outro ser mortal. Gostava de observá-los de longe, pregados em suas telas portáteis, vivendo de uma forma absolutamente plástica. Depois de um tempo parei de observá-los. Parei de beber deles, pois até isso era desinteressante.
E assim, os meus todos os meus dias se tornaram vazios. Exceto pelo dia seguinte, que era sempre mais vazio do que o anterior. Passaram-se cem? Duzentos anos? Eu não sabia ao certo, fazias décadas que não lia um jornal ou ligava a tv. A dor de não poder morrer. A condição estupidamente humana de querer demais algo, e logo assim que consegue, tal algo perde logo a graça de ser.
Há quase um mês que não bebo de nenhum ser humano, de modo que minha cabeça pulsa e meus sentidos se aguçam, procurando o mínimo traço de sangue no ar. Decido caminhar, matar um indigente qualquer na rua apenas para continuar não-vivendo. A maioria dos indigentes fede a urina, e o sangue dentro deles é sujo. Mas era isso ou matar mais um corpo vazio.
E eis que em meio a todo cheiro de fumaça, suor, mijo, borracha queimada e asfalto, eu sinto um cheiro adocicado, um pouco metálico. Decido seguir aquele traço ralo, que logo se mistura ao cheiro do papel queimando lentamente junto ao cádmio de um delicioso Marllboro Vermelho. Enfim, alguém ainda sabia como viver naqueles tempos desesperadoramente vazios.
E ao virar em um canto de futebol abandonado nos subúrbios da cidade, me deparo com duas pessoas, ao invés de uma, como eu pensara. Um jovem rapaz, duas décadas de vivência no máximo. O rosto dele carrega a alegria de alguém que vive fora do tempo, intensamente, em uma bolha de mundo que é só sua. Os cabelos cacheados tornam a expressão ainda mais intensa e adorável. Na mão há um isqueiro e da boca pende um cigarro ainda apagado. A moça que o acompanha é tão fantástica quanto ele. Os cabelos vermelhos destoavam de todos os outros sofrivelmente comuns, e na mão, um cigarro aceso. A expressão era vivaz, jovem, também devia ter duas décadas de vivência. O sangue não cheirava apenas a sangue. Cheirava a cumplicidade,cheirava a amor, cheirava a uma juventude que eu nunca havia experimentado. O sangue vinha de um pequeno pacto, onde os dois perfuram os dedões. Por deus ! Eles estavam fazendo um pacto!Que coisa única! O cheiro do sangue naquele momento era irresistível ! Eu juro que pude sentir o gosto só respirando.
E naquele dia eu estava novamente me apaixonando... mas com tanta sede... !
Adam. xx/xx/xxxx
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