Das vantagens e desgraças de ser imortal, a que mais me atraía era a de poder viver quantas vidas quisesse, com quantas pessoas eu pudesse, e ter tantos amores quanto eu pudesse suportar. Dos alertas dados nos momentos da pós criação, eram sempre elucidados os que mais poderiam atormentar-me. A morte de todo ente amado pelas interpéries do tempo era sempre o primeiro aviso. O segundo era exatamente um aviso, mas sempre o ouvi com tom de conselho, e referia-se a criação de um companheiro eterno. Estes, poderiam enlouquecer tamanho entendimento do que é a eternidade, e esse entendimento só chega quando enfim, quando após a escolha do companheiro é feita e o corpo fenece para dar lugar a indestructibildade e receber a eternidade. Era necessário escolher bem.
De fato, o segundo aviso, desde que encarado como conselho, era de grande ajuda. Nos cem primeiros anos de eternidade, a sede pela companhia era tão aterradora quanto a sede pelo sangue em si. Cada mortal era como uma rosa de sangue, e como uma rosa, feneciam rapidamente. Durante o processo, exibiam uma exuberante beleza, mas que por eles , mal era percebida. Sempre que eu matava para saciar a imensa sede de um vampiro jovem, era como cortar o caule de uma destas rosas ou despedaçá-la suavemente com as mãos.
O primeiro mortal que deteve minha atenção e fez-me considerar um companheiro plausível fora Gabriel, um jovem de 19 anos, à época. A rosa negra caminhando no imenso campo de rosas brancas vermelhas e amarelas. Seu sangue cheirava a mim de forma quase onírica, e era para mim, uma extrema sorte ele se dar quase exclusivamente a vida noturna, de forma que pude vigiá-lo por um tempo mais do que agradável antes de arriscar uma primeira aproximação.
Gabriel era deliciosamente complicado. Era ainda muito jovem, era músico, impaciente, inconsequente, um filho da noite embebido pelos prazeres de uma cidade capital. Saia de noite em noite, não se importando em perder alguns dos seus anos de vida, e voltava no quase amanhecer. Eu me arriscava até o ultimo segundo, só para vê-lo todos os dias chegar em segurança pela quase manhã.
E mesmo agora, quase cem anos depois, eu lembro exatamente da primeira canção que ouvi Gabriel cantar, e era a seguinte:
***
O eu sinto?
Um imenso vazio
Eu sei que você só quer
o que me tornei
O que me incomoda
é querer preencher
com as pessoas erradas
só porque convém.
Que preguiça!
Realmente um caso grave
Um grande vazio
As pessoas certas
já estão por um fio
Não quero que me use de fonte de inspiração
Que preguiça!
***
Sempre que acabo por cantarolar algum trecho, lembro-me da decadência do bar onde ele sempre cantava essa canção e florescia como rosa negra que era. O cheiro do tabaco tostado queimando em cada mesa escura, o barulho da sinuca batendo. O som do coração dele, em meio a tudo isso, acelerado pelo álcool, e logo em seguida acalmado pelo cigarro que ele acabara de colocar na boca e acender.
E nada melhor do que puxar assunto com um músico jovem e levemente bêbado após ele descer do palco. O júbilo do reconhecimento obviamente funcionou. Logo estava fumando um cigarro junto com ele. Obviamente meu pulmão agora morto não poderia usufruir dos prazeres da nicotina. É preciso estar vivo para poder se destruir dessa forma que agora me parece agradável.
Como eu quis beber daquele pescoço que cheirava a suor cerveja e cigarro. O sangue que não deveria ser exatamente doce, porém, com um sabor único, inimaginável até para mim. Gabriel me convidara para a próxima apresentação.
Compareci a próxima, e depois, a outra, e aos poucos, eu estava em cada uma das apresentações que ele fazia pela cidade. E como ele sempre me dizia, nunca pelo dinheiro, e sempre pela adorável decadência que só aquela vida poderia proporcionar. E assim eramos. Existíamos. Passei a viver através dele. Adorava o cheiro de cada cigarro aceso, e juro que sentia o gosto de cada cerveja bebida no ar. O quanto ele se enchia de álcool e fumaça, eu via cada traço dele se deteriorar lentamente como consequência disso. E a rosa que era antes negra, passou a ter leves contornos acinzentados, esbranquiçados.
E Gabriel alcançara a independência, queria dividir um apartamento com um amigo, coisa da qual prontamente me ofereci. E, se em um primeiro momento ele não se perguntara porque nunca me vira a luz do dia, agora esse questionamento poderia chegar. E eu falaria a verdade. O que sucedesse após isso, seria de acordo com a reação e o entendimento de Gabriel. Eu poderia matá-lo, ou poderia fazê-lo um companheiro eterno.
E foi adorável tal convivência. Eu amava-o mais do que qualquer humano mortal poderia amar um dia. O amor de um imortal é uma coisa deveras complicada. Ama-se de maneiras completamente distintas das maneiras de um mortal comun. O que são cem anos para o amor se não uma brincadeira de mal gosto?
Nos reuníamos toda noite, para beber qualquer coisa, e é claro que eu fingia. Eu o invejava secretamente pelo simples fato de que poderia morrer um dia, e que morreria consciente de que vivera da forma que mais lhe agradara. Não era alguém a ser desgraçado pelo dom da imortalidade, pela desgraça da sede. Em nossas imaginativas discussões, uma vez ele me disse que, para um vampiro, o sangue era como o cigarro era para um fumante. Satisfaz-se de uma quantidade infindável apenas para continuar insatisfeito.
E eu estava fadado ao fingimento. Fingia beber, fingia comer, fingia fumar. Só o amor me era real na utopia que vivi por cinco ou seis anos com Gabriel. Nunca lhe confiei demais para contar meu segredo, e tinha medo de errar ao fazê-lo meu eterno companheiro, havia uma certa culpa em tornar imortal alguém que de certa forma, vivia apenas para morrer. Não havia dúvidas de que eu o amava. E o amaria até o ultimo dia da sua vida.
E como cada vida segue um curso, em algum determinado momento, Gabriel se fora. O cheiro do sangue dele permaneceu no apartamento que agora era meu, rondando o ar, se confundindo com o cheiro dos cigarros, se misturando as manchas de vinho que derramamos em algumas das infinitas noites em que passávamos bebendo e compondo para algum projeto futuro dele.
As vezes eu aparecia em alguma apresentação, cada vez mais decadente. E o tempo corria rapidamente para ele. Gabriel teve dois filhos, e as apresentações minguaram. Envelheceu como todo humano que tem o sonho toldado. Trabalhou pra alimentar, e a diversão não era mais a do tempo passado. E por fim, feneceu.
E lá eu estava, em seu velório. Eu estava aquecido e bem alimentado do sangue doce de uma desconhecida que me chamara a atenção pelos olhos. Eu estava intocado. Um jovem rapaz me reconheceu. O semblante era o mesmo do homem não tão velho assim que residia no caixão. Um dos filhos dele. Era soberbamente parecido com o pai. Os cabelos pretos lhe caindo sobre a face, e os olhos quase tão escuros quanto os daquele que ajudara a lhe dar vida. Por deus, até o sangue cheirava quase identicamente.
Fiz a menção de acender um cigarro. Tinha me tornado experiente na arte do fingimento para com o tabagismo. Ele me acompanhou, alegando também querer um. Eu havia acabado de beber, mas o cheiro do sangue dele pulsando, quase que implorando para sair daquelas veias era tão forte, tão denso, tão convidativo. E se o sangue era como o cigarro, saciar-se era impossível. Era melhor se entregar por completo. E ao virar a primeira lápide, longe dos olhares curiosos, como dois jovens que saem pra fumar escondido, virei-me cravei minhas finas presas no pescoço.
Ele suspirou algo rouco, mas não me importei. Nunca havia bebido de Gabriel por medo de apaixonar-me pelo sabor, e por receio de amar incondicionalmente a possibilidade de fazer dele um imortal, toldando-lhe todo estilo de vida. Bebi em goles fartos, apreciando com saudosismo aquele gosto que só agora eu podia sentir. Não me importava com o rebento de alguém que fora amado, mas agora havia partido. Deliciei-me até o ultimo momento. De saudades agora, carrego apenas o gosto do sangue em minha boca. A vontade de um novo amor é agora como uma rosa que floresce, bonita, e logo fenecerá.
Fim do Anexo I
Adam xx/xx/xxxx
Fim do Anexo I
Adam xx/xx/xxxx
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