O sol novamente completa outro ciclo diário, dando lugar a noite. A luz se dobra para a escuridão no exato momento em que abro meus olhos. Deuses, a quanto tempo eu não bebo de ninguém? Um mês ou só um dia? Estou zonzo, faminto. Quase animado para sair e beber de alguém. Preparo-me para a caminhada que inevitavelmente levará a morte de algum qualquer.
***
E após caminhar por um tempo que não posso aqui determinar, entre indigentes que fediam a mijo e gente excessivamente desinteressante, sinto um cheiro novo no ar. Ele se destaca do cheiro de urina e poluição. É metálico e doce ao mesmo tempo, um cheiro deliciosamente perigoso, único. Do tipo que faria qualquer vampiro esfomeado matar por pura e simplesmente por impulso.
E eis que seguindo aquele agradável rastro até um campo de futebol abandonado a tempos, deparo-me com eles. Os cabelos pretos e cacheados davam ao rapaz um ar quase grego. Os olhos, demasiadamente sonhadores, davam a entender que vivia em outro tempo, um tempo que só pertencia a ele. Da boca pendia um cigarro ainda apagado.
A moça que o acompanhava tinha também os ares mais fantásticos possíveis. Os cabelos vermelhos caiam-lhe até abaixo do ombros, soltos. Fiquei por um tempo admirando eles serem levados pelo vento, pra lá e pra lá. Haviam algumas flores presas nele, que aos poucos, iam se soltando junto ao vento. Habilidosamente, um cigarro dançava nos lábios dela, cheios e sensuais, luxuriosos. Os olhos grandes e castanhos, quiçá tão sonhadores quanto os do rapaz, davam o tom.
O cheiro do sangue ficou um pouco mais forte, fazendo com o que eu julgava ser o meu estomago, se revirasse. E então percebi a grandiosidade do ato que eles ali selavam. Era um pacto de sangue. O aroma vinha de uma gota ou outra que escapava dos dedões fortemente pressionados um no outro.
Furei minha língua com uma presa, e o sangue jorrou em minha boca, numa tentativa quase desesperada de evitar matar por impulso. Eu preferia acreditar que era uma maneira de prolongar o prazer que eu poderia ter com aqueles dois. Como eu estava animado !
Retiro um cigarro do bolso, embora precise-se estar vivo para sentir o quanto é bom, eu continuava a fumar, um mero reflexo de convivência com Gabriel, embora não sentisse absolutamente nada. Caminho como quem não quer nada, vagueando com um cigarro ainda apagado nas mãos. Peço o fogo e ele me é oferecido.Deuses, eu queria matá-los ali mesmo.. Recebo um convite para sentar e aproveitar um baseado e as luzes da cidade. E assim que o cigarro compartilhado chega em minhas mãos, há uma impressão de sangue na ponta em que levo a boca. Tenho um vislumbre do sabor dos dois. Tão forte quanto qualquer coisa que eu já havia em vida ou morte, provado. Tinha o sabor extremo do vermelho vivo. Doce e salgado, vivo, composto de dois tipos diferentes. Um deleite. Tudo que deixava todo tipo de sangue impuro só servia para agregar sabor a este. Nicotina, álcool e o que mais fosse, tinha um gosto único, fantástico, to tipo que eu mataria toda noite apenas para beber um gole, pois provavelmente eu morreria de êxtase caso me arriscasse a beber um pouco mais.
Por deus, pelo diabo. O sangue distinguia-se de forma arbitrária. Havia um sabor forte, que inspirava liberdade e selvageria, inconsequencia. Já o outro ditava a tranquilidade, a paz, e o equilíbrio. Mas em ambos, percebia-se o traço da paixão e da cumplicidade recém forjada. Então os jovens ainda faziam pactos de sangue. Adoravelmente simples, encantadoramente fantástico, extremamente perigoso.
- Você ainda não disse seu nome.
- Vocês também não disseram os seus.
- Pois muito prazer, sou a Lis.
- E eu me chamo Caio.
- Lis, Caio. Muito prazer, eu sou Adam.
***
Ela, sentada a minha frente
Ele, junto a mim, rente.
Peço um gin. Não bebo.
Não bebo, mas cedo.
Cedo ao seu cabelo,
vermelho cor de de flor,
Flor de Lis.
Cedo ao seu abraço,
afável e companheiro.
Companheiro de isqueiro.
Peço outro gin. E não bebo.
Desta vez cedo,
E sinto. Sinto sede e minto.
Vou ao banheiro, digo.
Sigo. Assassino e
Bebo.
Acendo um cigarro
com o isqueiro amigo.
Juntos, os dois acendem,
Comigo.
***
E o quanto eu arrisquei-me ao viver com estes dois, indo até o ultimo momento possível, quando a luz dobrava a escuridão em um horizonte qualquer. Estar perto deles significava matar todas as noites, e beber até a ultima gota. Beber até quase não sentir o coração bater. Eu os amava além da minha própria compreensão. Era como tentar entender o universo e o real sentido do fato de que este mesmo universo é infinito, como tentar segurar fumaça com as mãos.
E a cada noite recitando poesia e fumando tantos cigarros quanto os pulmões vivos deles podiam aguentar, eu os amava mais, dolorosamente mais. Cheguei por fim a desejar ser mortal, e me matar de pouquinho em pouquinho com eles, cada dia mais. Mas mortalmente, eu os encontraria naquele delicioso rastro de sangue? Saberia que gosto tinham os dois em conjunto? Como a ironia é vil.
Eu sabia, a esta altura, que o que estava vivendo não era nada além de uma casca bonita, uma utopia imaginada por alguém em algum tempo. Logo eles envelheceriam, talvez não estivessem mais juntos, os ideais mudariam, e o estilo de vida à là Dorian Gray os abandonaria, trazendo o peso da idade. E eu me lembrei de Morgan, de Gabriel, e até mesmo de Perpétua. Lindas rosas que murcharam no devido tempo. Não seria diferente com eles.
E a cada noite recitando poesia e fumando tantos cigarros quanto os pulmões vivos deles podiam aguentar, eu os amava mais, dolorosamente mais. Cheguei por fim a desejar ser mortal, e me matar de pouquinho em pouquinho com eles, cada dia mais. Mas mortalmente, eu os encontraria naquele delicioso rastro de sangue? Saberia que gosto tinham os dois em conjunto? Como a ironia é vil.
Eu sabia, a esta altura, que o que estava vivendo não era nada além de uma casca bonita, uma utopia imaginada por alguém em algum tempo. Logo eles envelheceriam, talvez não estivessem mais juntos, os ideais mudariam, e o estilo de vida à là Dorian Gray os abandonaria, trazendo o peso da idade. E eu me lembrei de Morgan, de Gabriel, e até mesmo de Perpétua. Lindas rosas que murcharam no devido tempo. Não seria diferente com eles.
E de todo entendimento que eu podia tirar da convivência com os dois, definitivamente o mais importante fora o de que eu talvez não precisasse de companheiros imortais, realmente. Por duas vezes eu quase os transformei, em uma tentativa de tornar infindável o conforto que sentia ao estar com eles . Torná-los meus amantes eternos. Mas não o fiz. Embora para comigo eles demonstrassem amor e afabilidade, óbvios sentimentos que eu retribuía quase infinitamente, não poderia toldar-lhes as qualidades que os tornavam adoravelmente únicos, e unicamente mortais. Perderiam o gosto do cigarro. Passariam a entender o amor tal como o entendo, Matando qualquer sentido que pudessem ver no amor em que viviam. Transformá-los em meros fantasmas do que eram em vida seria uma completa crueldade de minha parte.
E mesmo com o tempo segurando-me, eu não podia fazer o mesmo. O tempo levaria consigo o gosto do sangue, o qual eu apenas vislumbrei, e eu perderia, talvez para sempre, toda a singularidade daquele gosto.
E após uma das noites, tão iguais as outras, mas também tão única, Lis e Caio dormiam em meu apartamento, que agora tinha um cheiro só deles. Chovia, e as nuvens obstruíam a visão do céu crepuscular. E eu acordei, faminto e decidido. Eu só podia ouvir a chuva leve, vez ou outra batendo em uma janela escura e a respiração dissonante dos dois. Poderiam estar mortos se não estivessem respirando, e julgando as roupas que vestiam, a chuva obviamente os prendera ali.
E o banquete se fez. Enquanto lentamente eu mordia o pescoço de Lis e arrancava o ultimo som que ouviria dela, com um dos meus dedos rasguei a garganta de Caio. E o sangue toldou minha visão. Creio que a última visão de Caio fora meus olhos enlouquecidos de prazer junto a minha boca sugando cada resquício de vida de Liz. E pouco a pouco, o sangue ia se misturando em um festival de prazer do qual a descrição tornaria-se tola. Em minha mente eu me desculpava. Morgan me ensinava que era melhor pedir o perdão do que a permissão.
Eu estava empapado de sangue, das mandíbulas até o torso, deitado em meio a meus amantes eternos. Os lençóis brancos eram vermelhos, minha pele branca era vermelha. Caio já partira para um lugar que eu talvez nunca iria, o além vida, mas Lis era forte, e mesmo eu a bebendo quase toda, podia sentir o coração dela, pulsando fortemente por veias quase sem sangue. Eu me sentia forte, vivo. O sangue dos dois corria em mim, e o que não corria estava espalhado pela cama, envolvendo nós três em um festim rubro e camim. Eu quase queria rir. O sangue em tamanha quantidade me deixava eufórico. Lis ainda respirava, mas logo parou, e foi juntar-se a Caio na eternidade que agora lhes pertencia.
E o sol fez mais círculos do que eu poderia contar, e ainda sim, eu costumava furar minha própria língua só para sentir o gostinho do Caio e da Lis, ter um vislumbre, uma lembrança, e só. Hora ou outra partiriam, morreriam, não seriam mais os mesmos Caio e Lis, jovens, misturando seu sangue em algum canto obscuro de uma cidade qualquer. O maior prêmio da imortalidade era este. Prolongar o prazer até o ultimo instante, como segurar a fumaça do cigarro no pulmão um tempo maior, para depois soltá-la devagar e constantemente. Eu acabei fazendo sim um novo companheiro, um amigo fiel, e que ainda hoje me acompanha à procura. E como toda vivência é um festival de erros, o maior erro ao criar Basílio fora justamente pensar que ele contentaria-se em ter-me como seu companheiro até o fim dos dias.
E o velho Adam estava de volta, sentado em seu sofá, no seu apartamento velho onde as janelas são pintadas de preto, pegando poeira, lembrando e relembrando, esquecendo. Procurando. Basílio ainda o tira da toca algumas vezes, pra ir ver uma banda nova, fingir que fuma cigarros, e perguntar de que cômodo vinha aquele cheiro deliciosamente incomum e estranhamente velho. Adam sorria ao receber esta pergunta, e para Basílio, ainda fascinado com a nova imortalidade, isto bastava.
Adam xx/xx/xxxx
E após uma das noites, tão iguais as outras, mas também tão única, Lis e Caio dormiam em meu apartamento, que agora tinha um cheiro só deles. Chovia, e as nuvens obstruíam a visão do céu crepuscular. E eu acordei, faminto e decidido. Eu só podia ouvir a chuva leve, vez ou outra batendo em uma janela escura e a respiração dissonante dos dois. Poderiam estar mortos se não estivessem respirando, e julgando as roupas que vestiam, a chuva obviamente os prendera ali.
E o banquete se fez. Enquanto lentamente eu mordia o pescoço de Lis e arrancava o ultimo som que ouviria dela, com um dos meus dedos rasguei a garganta de Caio. E o sangue toldou minha visão. Creio que a última visão de Caio fora meus olhos enlouquecidos de prazer junto a minha boca sugando cada resquício de vida de Liz. E pouco a pouco, o sangue ia se misturando em um festival de prazer do qual a descrição tornaria-se tola. Em minha mente eu me desculpava. Morgan me ensinava que era melhor pedir o perdão do que a permissão.
Eu estava empapado de sangue, das mandíbulas até o torso, deitado em meio a meus amantes eternos. Os lençóis brancos eram vermelhos, minha pele branca era vermelha. Caio já partira para um lugar que eu talvez nunca iria, o além vida, mas Lis era forte, e mesmo eu a bebendo quase toda, podia sentir o coração dela, pulsando fortemente por veias quase sem sangue. Eu me sentia forte, vivo. O sangue dos dois corria em mim, e o que não corria estava espalhado pela cama, envolvendo nós três em um festim rubro e camim. Eu quase queria rir. O sangue em tamanha quantidade me deixava eufórico. Lis ainda respirava, mas logo parou, e foi juntar-se a Caio na eternidade que agora lhes pertencia.
E o sol fez mais círculos do que eu poderia contar, e ainda sim, eu costumava furar minha própria língua só para sentir o gostinho do Caio e da Lis, ter um vislumbre, uma lembrança, e só. Hora ou outra partiriam, morreriam, não seriam mais os mesmos Caio e Lis, jovens, misturando seu sangue em algum canto obscuro de uma cidade qualquer. O maior prêmio da imortalidade era este. Prolongar o prazer até o ultimo instante, como segurar a fumaça do cigarro no pulmão um tempo maior, para depois soltá-la devagar e constantemente. Eu acabei fazendo sim um novo companheiro, um amigo fiel, e que ainda hoje me acompanha à procura. E como toda vivência é um festival de erros, o maior erro ao criar Basílio fora justamente pensar que ele contentaria-se em ter-me como seu companheiro até o fim dos dias.
E o velho Adam estava de volta, sentado em seu sofá, no seu apartamento velho onde as janelas são pintadas de preto, pegando poeira, lembrando e relembrando, esquecendo. Procurando. Basílio ainda o tira da toca algumas vezes, pra ir ver uma banda nova, fingir que fuma cigarros, e perguntar de que cômodo vinha aquele cheiro deliciosamente incomum e estranhamente velho. Adam sorria ao receber esta pergunta, e para Basílio, ainda fascinado com a nova imortalidade, isto bastava.
Adam xx/xx/xxxx
Um comentário:
Amei esse final, formou um quadro lindo.
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