A hora é inexata. Acordo como que saltando de um sonho vazio. Sonho este, reflexo do cansaço. Sento-me na cama, esfrego os olhos em busca de um retorno qualquer de consciência. O rádio relógio na cabeceira está com as horas bagunçadas, ou talvez minha mente esteja. Sonhos vívidos em demasia costumavam me causar tal confusão, que beirava a um questionamento leve da realidade ali imposta.
Ouço o rufar quase inaudível da respiração dela. Cinco anos de limbo social, e então, um encontro tanto surreal quanto explosivo, talvez necessário. Pego meu cigarro no chão e vou para a sacada do apartamento. Mais de cinco anos, e eu ainda respeitava as antigas regras. A hora é inexata mas o momento da madrugada é aquele onde só o que é etéreo se move e que eu costumava carinhosamente chamar de horas mortas.
O cigarro me deleita, e eu o aprecio. A unica coisa que se move livremente é a fumaça, saindo do meu nariz, entrando em cada via inexplorada, se é que ainda havia alguma. Ela se meche na cama e os lençóis farfalham como folhas meio secas sendo arrastadas pelo vento vagarosamente.
Lembro-me do nosso primeiro contato, um quase devaneio. Vejo-a na banca de revista, óculos escuros atemporais, comprando um maço de Marlboros vermelhos, os mais fortes, os meus favoritos na época. Nos ares densos de janeiro, a fumaça exercia sobre mim uma fascinação exuberante. Eu poderia ficar horas observando a mesma cena. O batom vermelho e o cabelo curto davam o tom. Também compro meu cigarro. Por sorte, íamos ao mesmo lugar.
O cigarro está na metade, e eu , um tanto irrequieto. O sono abandona-me completamente. As ruas são desertas, o ar mal se mexe. O cigarro ajuda a esquecer o gosto amargo da boca dela. Mas quem sou eu para dizer algo. O mesmo cigarro não apaga da minha boca o gosto de sangue que cedo ou tarde eu sentiria novamente.
O doce estranho do sangue contracenava com o amargo dos comprimidos em cada beijo trocado. Dolorosamente melancólico. Mais três ou quatro meses e eu passaria desta para a pior. Ou para a melhor. Percebo estar já no terceiro cigarro. Eu estava literalmente morrendo, e ela estava não-vivendo. O par perfeito.
A paz que o cigarro proporciona vai se apossando de meu corpo, devagar. Vinte e oito anos, fumante desde os dezesseis. Paciente de câncer terminal a quatro semanas. Não percebo ela aproximando-se. Tão silenciosa quanto a sua respiração. E em cinco anos, pela primeira vez não faço questão de apagar o cigarro. Sento-me na pequena poltrona e continuo fumando deliberadamente. Ela pega um cigarro dos meus, acende-o, pousa sua mão no meu peito. O toque me é doloroso. Penso a todo momento que provavelmente, é o ultimo que sentirei de suas mãos.
- Você não vai parar não é?
- O câncer me foi incompassivo. Você também nunca parou.
- E você é basicamente, uma indução ao erro.
- Em três ou quatro meses, talvez, tu não erre mais. Nunca falamos sobre parar.
- Mas nós paramos, afinal.
- E todos os motivos para questionar o porque agora já não se fazem necessários.
- Ainda bem.
- Ainda bem.
Ela me acaricia. Algo raro nos primeiros dias. E meu peito dói. O toque, a doença corroendo e fazendo seus planos finais, a fumaça que entra pelo que eu imagino serem feridas abertas internas. Involuntariamente, minha boca forma um esgar.
Permanecemos ali até todas as cinzas ficarem frias.
- Vai ficar?
- Nunca é tarde para mais um.
Ela me dá um beijo na testa e volta a posição anterior. Acendo mais um, tão contemplativo quanto o primeiro, tão denso quanto aquele que pendia na boca dela no primeiro dia em que a vi. Ela toma o cigarro da minha mão, dá uma ultima tragada e me devolve. Os olhos diziam que iria pelo cansaço, mas que não me deixariam.
Escuto a água na cozinha, enchendo um copo e depois outro. Meu corpo ensaia uma tosse espasmódica, mas eu reprimo. Ela volta, e me dá um beijo amargo e rápido. Quando chego finalmente a cama, lânguido, ela já está dormindo silenciosamente. O rádio relógio na cabeceira agora indicava as horas. 3:19.
Esfrego os olhos, buscando uma réstia de sono. A paz embalada do cigarro fora bastante eficaz. Logo adentrei naquele estado, entre o sonhar e a realidade, onde nunca se sabe se está dormindo ou sonhando. O ar fica denso, sonho acordado com aquele Marlboro recém aceso pendendo de sua boca. Eu quase podia sentir o cheiro.
Concentro-me no rufar inaudível de sua respiração, extremamente calmo, perigosamente dopado. Sou tragado novamente para o sono sem sonhos que só o cansaço mental proporciona na mesma velocidade com que sai dele. A fumaça do delírio desvanece e dá lugar ao nada.

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