Vou lhes contar o que aconteceu comigo certa vez.
4 de Junho de 1989
Abri meus olhos. Hora de encarar a rotina. Sair da cama, me vestir, tomar o café da manhã meticulosamente preparado por minha mãe, e logo após, ir pra escola. Tudo tão chato, monocromático. Era tentadora a vontade de não aparecer na escola hoje só para praticar o bom e velho “Carpe Diem”.
Subi a persiana da janela. O dia estava silencioso, e agradavelmente quente. Novamente a vontade de não comparecer as aulas. Relutante eu fui à cozinha. O café, que diariamente estava sobre a mesa, hoje não se encontrava por ali. Nem o pai na cabeceira da mesa, lendo seu jornal matinal, muito menos a mãe, sempre encostada próximo à janela da cozinha, com sua xícara de chá. Talvez eles tivessem saído mais cedo para as compras ou que seja.
Eu estava sozinho em casa, como tantas vezes desejei. Mas infelizmente eu já estava arrumado para ir à escola. Desci as escadas do prédio, que por algum milagre divino, estava absolutamente silencioso, nem o encanamento rangia. Estranhei o carro do meu pai, ainda na garagem. Eu já chegaria atrasado na escola, aliás, teria que caminhar. Então aproveitei a caminhada. Por sorte perderia os dois primeiros tempos.
Mas a minha caminhada foi assustadora. Ninguém nas ruas. Nenhum carro. Nenhum som. Eu que desejava a solidão em tantos momentos... Seria uma espécie de sonho-pesadelo? Acho que não. As luzes estavam muito fortes, e eu lembro exatamente como havia chegado ali.
Ninguém na escola. Aparentemente, ninguém na cidade. Nenhum som de carro, nenhum som de conversa. Nenhum telefone ou jukebox tocando em lugar algum. Nada. Como se um aviso nuclear tivesse tocado e todos tivessem que sair as pressas. A única explicação logicamente plausível. Caminhei novamente até em casa. Puxei o telefone do gancho. Sem linha.
O que era isso? O que estava acontecendo? Meus pensamentos fluíam incessantemente. Morte sonho ilusão devaneio ou provação. Até coma eu imaginei.
Ou um simples atestado de liberdade. Encarar como liberdade em seu sentido literal talvez não me enlouquecesse. Talvez fosse apenas um delírio. Um delírio bom.
Milhares de possibilidades, ninguém pra me regrar. Acho que estou gostando disso. Tantas vezes desejando ficar sozinho em casa, e agora uma liberdade integral. É muito estranho. Aos poucos meus pensamentos foram substituindo por apenas um. Agora eu posso fazer o que quiser.
O shopping. O primeiro lugar em que eu fui testar minha dádiva, como eu preferia pensar. Ficar completamente sozinho era uma perspectiva enlouquecedora.
Porta trancada. Uns dois chutes para abrir, e voilá! Um mundo de coisas pra comprar, usar, queimar, destruir. Era tudo meu. O mundo era meu playground. Derrubar as tv’s das lojas, ou quebra-las com um taco de baseball era relaxante! Devo ter passeado o dia inteiro pelo shopping, experimentando todas as coisas, comendo tudo que podia, experimentando todas as roupas e sapatos a vista. Já estava anoitecendo quando dei por mim. Voltei pra casa a passos rápidos, com um medo infantil do escuro. Agora que era noite, eu me dei conta de que precisaria de luz. Acendi o interruptor da sala. Ela ascendeu, para minha surpresa, mas estava fraca, como se a rede estivesse oscilando. Nada se movia pelas ruas. Dei uma espiada na rodovia, a uns dois quilômetros abaixo dali. Nenhuma luz de carro. No resto da cidade, nenhuma luz. Liguei a tv, programação nula. Fiquei um pouco mais de tempo ali na janela, ouvindo os sons da noite, ou mais especificamente, a falta deles. Tudo tão normal. Tão normal que estava se tornando amedrontador. A brincadeira no shopping me cansou. Braços doloridos de tanto destruir tv’s. Acho que amanhã eu vou dar uma volta de moto. Mas por hoje, eu vou descansar. Talvez amanha eu acorde, e descubra que tudo isso foi um sonho, um dos bem divertidos.
Noxx, 4 de junho de 1989.
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