7 de junho de
1989
O homem,
criado para ser livre, acabou preso em conceitos que ele próprio criou.
Acordei cedo
hoje, talvez estivesse ansioso, mas ainda sim, havia muito a se fazer. Passei a
primeira parte da manhã juntando as coisas para viajem. Roupas, os itens que
havia retirado do shopping, alguns mantimentos. Fui ao quarto dos meus pais,
procurar um mapa ou algo que pudesse me ajudar. Lembrei de uma briga que eles
tiveram, e que eu só escutei alguns gritos. Eles brigavam porque meu pai havia
comprado uma arma, e levado para casa. Sei que foi por causa de uma arma porque
depois de um tempo, eu mexi no guarda roupas dele e a encontrei lá. Ele não fez
muito para esconder a arma. E hoje eu estava ali e não custava nada ver se a
arma ainda estava lá. E estava, na mesma caixa, escondida atrás de um par de
sapatos que não eram mais usados. Coloquei a caixa com a arma dentro da
mochila. Talvez eu usasse, talvez não, mas quem sabe. Precisar dela? O tempo me
dirá.
Aquela foi a ultima vez que eu entraria no quarto dos meus pais. Passei no meu quarto para me despedir. Uma ultima olhada na cozinha. A ultima xícara de chá da noite anterior , um resquício de uma vida normal ou quase isso. E era isso. Era hora de ir.
Aquela foi a ultima vez que eu entraria no quarto dos meus pais. Passei no meu quarto para me despedir. Uma ultima olhada na cozinha. A ultima xícara de chá da noite anterior , um resquício de uma vida normal ou quase isso. E era isso. Era hora de ir.
Eu poderia
pegar qualquer carro da cidade, mas já estava acostumado a dirigir o do meu
pai. As vezes eu saia escondido com o
carro a noite, para me divertir com os amigos, ou sair com alguma garota. Meu
pai não sabia, mas acho que minha mãe desconfiava, porque uma vez ela me viu mexendo
no chaveiro a noite, quando ela ia pro banheiro. Então coloquei todas as coisas
no carro. A barraca, os mantimentos, cobertores, lanternas, pilhas, e tirei a
arma da mochila e coloquei no porta-luvas. Deviam ser umas 10 da manhã quando
coloquei o carro na rua. Um dia ensolarado! Perfeito para uma viajem, sem
preocupações com chuva e temporais. Voltei até a casa. Pensei em queimar a
casa, e ver se a vizinhança queimava junto. Peguei um galão de querosene ali na
garagem mesmo, e espalhei um pouco lá, Subi até a sala, e molhei o carpete e as
cortinas. Subi as escadas fazendo uma linha com o querosene no chão. Deixei o
galão lá em cima, espalhando pelo chão o resto do querosene. Desci para a
cozinha e liguei o gás e peguei uma caixa de fósforos, que ascendi quando saia
da garagem. O fogo subindo da garagem para a casa pelo caminho que eu fiz.
Seria só uma questão de tempo até o gás entrar em combustão. Me afastei com o carro
até o outro lado da rua. E houve um “BOOM”, os vidros das janelas se
estilhaçaram, o ar quente bagunçou meus cabelos. Agora o fogo sai pelas
janelas. Breve a próxima casa estaria queimando também. Estava feito. Essa
seria minha despedida. Agora seria seguir com a vida. Seguir pro litoral. Ah,
nesse primeiro momento de viajem, eu havia me esquecido de algo primordial. Um
mapa. Tive que voltar ao shopping para pegar um mapa. Peguei a rodovia saindo da cidade. Dava pra
ver a cidade queimando lá atrás. Eu era livre.
Noxx, 7 de
junho de 1989.
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