quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Changes


                Amei a pequena Jenny no primeiro momento em que a vi. Ela não era perfeita, não, longe disso. Era linda, absolutamente linda, irremediavelmente linda. Eu estava apaixonado. Apaixonado por seus dedos finos como agulhas e que manuseavam as seringas com tanta maestria. E os olhos, ah, que olhos, grandes e cinzentos, que sustentavam um olhar vago, beirando ao delírio. E seus cabelos me deixaram maravilhados. Loiros, um pouco bagunçados, aparentemente macios ao toque. Meu bom Deus, como ela era linda.

                Demorei um tempo para tomar iniciativa e falar com Jenny pela primeira vez, creio que uns dois meses. Em todos os momentos em que a vi, ela estava fora de si por causa da heroína. Usava ali mesmo, no colégio, durante o intervalo. Então um dia fui até ela, pedir um cigarro, sei lá. Estávamos no segundo ano do colegial, e eu nunca tinha colocado um cigarro na boca, ao contrário de todos os meus colegas de classe. Foi bem estranho porque eu não sabia tragar, então Jenny me ensinou. Ela parecia achar graça em ensinar alguém mais novo.. Embora estivéssemos em turmas semelhantes, ela era um ano mais velha. Ela disse pra colocar o a fumaça que vinha do cigarro na boca, e depois puxar o ar pro pulmão, como se estivesse tomando um susto.
E foi assim que conheci a minha pequena Jenny.

                                                              ***
               
                Meu pai costumava dizer: “A vida é uma corrida que você tem que ganhar. “ 
Eu nunca quis ganhar uma corrida. Nunca. Já tem mês e meio que tenho saído com Jenny e conhecendo seu mundo. Eu lhe dava amor, e ela me ensinava a voar.

                Jenny costumava dizer que eu era preso, que deveria me soltar mais, e que ela seria a agente da minha metamorfose. Ah, como eu adorava passar qualquer tempo com ela. Passeávamos a noite pelos subúrbios, de mãos dadas. Ela me ensinou a enrolar e como curtir um baseado. Já não andávamos mais, flutuávamos.

                Meu amor por Jenny crescia. Trocávamos uns beijos as vezes, mas nada demais. Ficamos nessa até a metade do último ano. E Jenny, como agente da minha metamorfose, foi me moldando completamente através dos meses. Às vezes me dizia o que vestir, ou a maneira de como ela gostava do meu cabelo.

                O nosso primeiro pico de heroína juntos foi o máximo. Geralmente Jenny só cheirava e eu ficava no cigarro normal, observando as pupilas dela aumentarem e diminuírem como um obturador de máquina fotográfica. O primeiro pico foi indescritível, não existem palavras para definir a sensação. O que me vinha á cabeça era euforia. Euforia e logo depois a calma.

                Minha mãe e meu padrasto não imaginavam o que se passava, é claro. Eu ainda era o filho exemplo. Eles continuavam a me dar a mesada gorda toda semana. Perguntaram-me uma vez porque eu andava reprimido e só. Obviamente também não sabiam de Jenny. Já os pais dela, me pergunto até hoje se ela de fato tinha pais.

                Quando saíamos não buscávamos muita coisa. A maioria das vezes andávamos pelo subúrbio vazio, e nas outras, sentávamos na ponte abandonada onde o trem já não passava devia ter uns dez anos. Aquele subúrbio era nosso parquinho particular. Poderíamos fazer o que desejássemos  ( o que de fato fazíamos).

                Eu picava Jenny. Ela me ensinou a prender o sangue com um cinto velho de couro, esquentar a herô numa colher, e depois colher com a seringa. Dois tapinhas com os dedos em seu braço, e a veia azulada já saltava por baixo da pele branca e macia. Dava pra enxergar mesmo com pouca luz disponível. Em seguida eu era picado. Heroína quente no sangue quente. Jenny me beija. Um beijo quente , lento, molhado. Foi como ir ao espaço e ver o sol de perto.

                A heroína corre em meu corpo, misturando-se ao amor. Euforia suprema , calma repentina. Vontade. Jenny ainda me beija e nossos corpos estão quentes. Muito quentes. Abro os olhos e encaro os dela. Ali a meia luz que vinha da ponte, eu poderia ver suas pupilas dilatadas, negras. As minhas devem estar iguais, senão piores. O beijo cessa de tamanha lentidão em que o levávamos.  Sinto a respiração de Jenny na minha boca. O mundo oscila, e eu encaro aquelas pupilas enormes que tanto me fascinam e mergulho de cabeça nelas.
    
                                                                           ***

                Estamos juntos a um ano e meio agora e mal posso me reconhecer. Vamos caminhando trôpegos pelas ruas, altos. A iluminação alaranjada das lâmpadas de mercúrio fazem nossas sombras valsarem.
                O tempo não passa quando estou com Jenny. Tempo tempo tempo. Não há tempo quando estamos literalmente altos. Só eu e Jenny (e a Herô). Meu amor por ela é infindável, mas me pergunto o que ela sente por mim. Mas logo passa. Talvez eu não queira saber.
                Éramos amigos, antes de qualquer coisa. Nunca dissemos a palavra namoro. Na verdade não éramos muito de dizer. Definitivamente Jenny mudava-me, se para o bem ou para o mau, isso não interessa. Roupa e cabelo eu mudei para adequar-me , mas Jenny não, ela permanecia imutável.

                                                                         ***

                Estamos altos de novo, e de novo, e de novo. Quantas seringas no último mês? Quinze? Dezoito? Já perdi a conta. Dez tendem a ser vinte.  Me distanciei. Já não queria mais saber da Jenny, encontrava-a só pela heroína de boa qualidade. Meus braços já não aguentavam mais. E de repente eu me percebi magro, aparentemente doente. Os cabelos ficaram ralos. Não consigo mais diferenciar o amor da heroína e creio que Jenny nunca conseguiu, pois esteve sempre alta.  Já nem penso mais nela.
                                                                         ***
                Há uma despedida e não há mais o amor, apenas a admiração pela beleza. Estou definitivamente mudado. Digo a Jenny o que pretendo e ela entende ou não. Não dá pra saber. Pode ser que na cabeça dela tudo não passou de um sonho onírico/eufórico. Dou-lhe um beijo no rosto e sussurro um obrigado (pelo que?). Não há mais Jenny, não há mais amor. Tenho 6 doses e preciso de uma para não cair.
                E foi enquanto a mamãe e meu padrasto não viam, que me apaixonei e endividei. Álcool cigarros e herô pra me deixar louco. Louco usando a heroína de alguém. A última coisa de que me lembro antes de sair parcialmente da realidade,  foi o barulho  das duas  seringas  batendo no chão: Tic Tic Tic.
                Fecho os olhos vejo Jenny dentro de uma banheira injetando
Tic tic tic

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