quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Você
Eu ouço em seu silêncio, quando tu não fala. O que era engraçado já não é mais, e nós estamos indo a lugar nenhum. E estamos indo rápido.
Você invadiu meu rádio. Costumava me falar de amor, de ódio. Você libertou meu coração da prisão. Libertou também a cabeça, cheia de pensamentos antiquados. Você quebrou meu conceito, de que é mais importante ser legal do que ser sábio. E tu era sábio.
Lembro-me de quando procurávamos algo na tv, esperando o apocalípse, dos nossos beijos na chuva, do nosso descompromisso compromissado. E lembro de quando começamos o que quer que seja de você me dizendo:
"- Eu posso de dar qualquer coisa, mas eu vou te dar problemas. "
Aqui em casa o tempo é doce, posso ouvir crianças na rua brincando na rua. Estou ouvindo o disco do Sonic Youth que tu me deu. Lembra como era bom ficar chapado. Brincar de filosofias vãs e rir daqueles que não eram felizes. Sinto-me saudoso com aquele tempo.
Tu aqui em casa quando meus pais não estavam, fazendo truques de mágica, eu dizendo " Me mostra, me mostra, me mostra como fazer o truque? " e tu atirando os braços no meu pescoço. Dormiamos naquelas tardes preguiçosas. Eramos um chamariz de curiosos. Só amigos ou algo mais? Talvez os dois.
Mas estavamos indo a lugar nenhum, e estavamos indo rápido. Caminhando pro apocalipse. Sempre juntos no intervalo, sempre juntos em todas as tardes, todas as festas, todos os lugares. Poderiamos ser confundidos com irmãos. Não era caminhar para o nada.
A desconfiança nasce tão facilmente quanto um amor inesperado. E os rapazes e moças da escola definitivamente desconfiaram. Nos tornamos o assunto dos corredores. Olhares estranhos, risadinhas. Alguns caras do ultimo ano chegaram a gritar um sonoro "BICHA" pro Lucas no corredor.
E o apocalipse chegou e a culpa foi minha. Um dia, apenas um dia em que te abandono, e o mundo cai sobre tuas costas. Lembro da ultima vez que te vi, do teu último abraço, e da última coisa que tu me disse:
" - Vai na sombra meu bem! "
Teu ultimo cheiro ainda está na minha blusa. Lembro dos teus pais ligando, pra me avisar do ocorrido. Atropelamento, aparentemente acidental. O baque que me atingiu foi apenas inexplicavel. As lágrimas rolaram quentes, como nunca antes. Fiquei horas chorando silenciosamente, e depois, caindo no desespero. Teu último cheiro ainda está na minha blusa. É a última coisa física que tenho de tu. O gosto de brandy do teu beijo, o seu cheiro de adolecência. Agora tudo é lembrança.
Tu era meu amigo pro fim do mundo, ou mais que isso, mas agora eu caminho sozinho pra lugar algum, e caminho rápido. Vou caminhando com a saudade, acho que não demora pra dor passar. Choro pouco agora porque aceito que no fim, voltaremos a nos ver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário