Lembrar de Morgan causa-me arrepios. Morgan fora a única que conheceu meu segredo por completo. Compreendeu-o, deu-me a ferramenta para compreendê-lo de forma mais clara. Ouso dizer que fora uma das mulheres mais fantásticas que eu conhecera.
Conheci Morgan em um dos bares onde o agora falecido Gabriel costumava tocar em seus tempos áureos. Sim, passara-se muito tempo desde que Gabriel enfim se fora. Os tempos mudam e não há mais shows ao vivo, com o bom e velho post punk tocando sem parar por todos os lados.
Nos dias dela, os jovens saiam para dançar e exibir seus corpos fortes e jovens. Os dias de Morgan eram também os meus dias de uma sede insaciável. Sede que eu mal podia controlar. E então, eu bebia todas as noites. As vezes mais de uma vez. Criei um gosto esquisito pelo sangue sujo de álcool. E era exatamente isso que me levara a estar onde eu exatamente estava. Jovens dançando, no escuro, agradavelmente bêbados. A minha frente extendia-se um cardápio infindável do meu prato favorito.
Morgan era o marco central dos meus tempos de excesso.
Eu procurava pelo corpo dançante mais vulnerável. Observando, sondando. E a vejo em meio a mil outros, dançando de forma quase sexual, perfeitamente. Observá-la na luz que pisca incessantemente é como vela em câmera lenta. Lábios grandes, olhos incrivelmente bem delineados, cabelo cacheado que lançava seu perfume sem que ninguém percebesse, exceto eu. O suor escorria em pequenos e imperceptíveis filetes pelo seu pescoço. Imaginei como seria com sangue e desejei de maneira quase insana drenar todo o sangue daquele lindo corpo ali mesmo. E nesse pequeno momento de distração, ela se aproximou. Talvez tenha percebido que eu a observava. Pediu-me um cigarro e também o isqueiro. Deveria ter visto-me na área de fumantes ou algo do tipo, de modo que fiquei surpreso. Eu estava perdendo a discrição.
Naturalmente, acompanhei-a no cigarro. Ela disse que eu estava olhando demais para ela e eu respondi que talvez estivesse interessado. "Em que?" Ela me pergunta. " Em tudo! " Respondo a ela.
Estendo a mão, anunciando meu nome, que a tanto não digo. Ela retribui o aperto e também diz o nome. Pergunta-me se quero dançar, o que logo aceito. Havia algo em seu ser que a tirava completamente da vala comum, embora eu nunca saberei responder do que se trata exatamente.
E eu me encantei. Caindo e girando em uma velocidade agradável na espiral que se tornara o amor. Morgan deu-me o número de telefone, com um " Me liga" escrito e uma marca de batom em um guardanapo. E eu liguei. E passamos a sair para dançar todas as noites. Terça e quinta ela me levava a uma casa de tango e me ensinava passo a passo, coisa que eu dominava com maestria. Durante as danças, discutíamos de todos os assuntos.
Morgan era professora de dança durante o dia, e a noite, dançava apenas para aproveitar. Ocupava o tempo livre com leituras das mais variadas, algumas inclusive, inerentes ao meu tempo. O seu nome vinha do romance " As Brumas de Avalon ", como descobri assim que ela me emprestara o mesmo.
Nas nossas danças, ela passava tanto de sua personalidade, e isso me encantava radicalmente. Dançar com ela era sempre voluptuoso, beirando ao sexual, e fazia lembrar-me do tempo em que meu corpo estava vivo e me permitia tais prazeres. Morgan fora a primeira pessoa que eu beijara após a transformação, e foi uma coisa esplêndida. Meu sangue pareceu pulsar todo ao mesmo tempo, implorando para beber do sangue que era dela. E eu resisti.
E dançávamos pela noite quase que perfeitamente, todos os dias. E nos tornamos confidentes, do ultimo beijo até os segredos mais secretos, sujos, perigosos, e profanos. Eu só tinha um segredo real, e Morgan tinha todos. Na minha escala temporal, cerca de 4 anos se passaram assim. E em quatro anos, eu tinha uma vida completamente falsa para alguém que tinha comigo total franqueza. E senti-me injusto, culpado.
Não queria cometer o erro traumático de dizê-la sobre toda a verdade. Cometer o mesmo erro trágico que eu cometera com Perpétua. Mas eu estava decidido. Morgan estava decididamente a frente do tempo em que vivia. Para ela toda discussão era livre e tinha pontos a se considerar.
Confiei a ela o meu segredo. Provei a ela que o segredo era verdadeiro. E a surpresa dela fora inevitável. Ela acendeu um cigarro, e me passou. E logo recusei. Precisa-se estar vivo para aproveitar realmente o prazer que o cigarro propõe. Conversamos durante muito tempo, sobre como eu a observava pensando em matá-la para me alimentar devidamente, e sobre como a ideia foi-se embora tão rápido quanto viera. Ela me fez perguntas específicas, e eu respondi. Perguntou se eu havia praticado alguma técnica de hipnose, e e respondi que quem sofrera hipnotizado havia sido eu mesmo. Ela riu. E eu ri. Ela fumou outro cigarro.
Então ela me fez uma ultima pergunta. Perguntou-me se eu eu gostaria de beber de seu pescoço, com seu consentimento. Perguntei por que, e ela respondeu meramente que era algo com que fantasiava na adolescência. E pela primeira vez, bebi de um amante.
Não há palavras que possam descrever o prazer, o êxtase, a satisfação. É como ter todo amor platônico sonhador transformado em realidade, e todo amor real ser correspondido. O sangue era tão quente quando o beijo, parecia ferver. Morgan deixou uma quantidade generosa de ar escapar quando dei o segundo gole grande. Acho que ela também estava tendo seu prazer, a seu modo.
E o terceiro gole fora ainda mais intenso, porque era o gole em que eu deveria parar. Largá-la levou embora toda a felicidade vivamente sentida. Meu corpo estava levemente corado, agradavelmente aquecido. Furei minha língua e instintivamente a beijei, dando uma pequena infusão de nosso sangue. E novamente ela despejou um suspiro tão grande que mal pude acreditar.
O êxtase dos três goles me deixara zonzo, ela acendeu mais um cigarro. Desta vez a acompanhei, sentindo cada célula do meu corpo se deliciar com aquele sangue que tinha gosto de sensualidade. Sangue que formara um rio de sentimentos no mar que havia em mim.
Perguntei-a se gostaria de passar mais tempo comigo, se desejava o dom da imortalidade. E houve uma recusa. Ela entendia o peso daquele convite, talvez mais do que eu, de modo que, encarando da perspectiva dela, era absolutamente correto. A vida dela se encontrava exatamente nos prazeres carnais. O calor do beijo, a paz que o cigarro traz, o sexo, o suor proveniente da dança.
Perguntei-a se queria um tempo para pensar, e ela disse exatos dez anos. Que passaram como meses. Quando retornei, ela estava tão fantástica, tão bela. Os furos que causei quando bebi viraram ínfimas cicatrizes, uma lembrança rala de um ato passado. Ela me repreendeu por não envelhecer devidamente. E novamente uma recusa. Aquela fora a ultima vez que vi Morgan antes de seu enterro, que ocorrera quinze ou vinte anos depois, em decorrência de um câncer de pulmão.
Ela me mandou uma carta, com um pequeno poema, que só abri muito tempo depois de sua morte. Aqui está:
***
Toda vez que me sento para escrever
sobre saudades, eu lembro de nós.
Da nossa lealdade
Da nossa Cumplicidade
Lembro de todos os Lucky Strike
fumados
de todos os beijos trocados
de toda fumaça compartilhada.
Lembro dos nossos planos de de orgia
Dos momentos de lisergia
E da nossa letargia.
E da nossa alegria
E agora, no fim de tudo, lembro da minha saudade
da saudade da amizade,
Da cumplicidade.
Dá Saudades.
***
Nunca fui bom com versos para responder a altura, mas levei as rosas mais belas que encontrei para deixar em seu leito de morte. Mas quando cheguei, ela já havia partido para sempre, enquanto eu permaneceria por aqui, imutável, infindável, inconsolável.
Fim do Anexo II.
Adam xx/xx/xxxx
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